Até ontem eu tinha 35 anos. E estava me achando ótima. Uma delícia cremosa, uma jovem livre, que não tem que dar satisfação à mais ninguém, nem mesmo aos próprios vizinhos. Com energia, disposição e desprendimento (fruto de suficiente terapia) pra fazer o que quiser.
Mas então, eu fiz aniversário. 36 e entrei em pânico. Meu marido, que não entende nada das crises existenciais das mulheres, como homem nenhum entende, me disse, simplesmente, sem complicação nenhuma – o que não me serve pra nada:
- Uai, pra quem tinha 35 ontem, 36 não é tanto assim…
Ah, não é! 35 é trinta e poucos. 36 é trinta e TANTOS! E já que o digníssimo não foi suficientemente compassivo com minha loucura, fui tomar um chá com as amigas, que além de compreender completamente o que não faz nenhum sentido, são solidariamente empáticas a mim.
- Imagine que agora eu tenho rugas no joelho. – disse a mais perfeccionista, se é que dá pra notar – E olha que sou 3 anos mais nova que você! Fala sério, é por isso que você só usa vestidos longos, não é?
- E vocês viram que saiu na revista que o homem que viverá 150 anos já nasceu? Legal, né? – falou uma com tranquilidade desnecessária.
- Que legal o quê! Eu não quero ficar pra semente. Se for um homem mesmo, do sexo masculino, até que vá lá. Mas para uma mulher ou um metrossexual não daria certo de jeito nenhum. Imagine o quanto teríamos que trabalhar só pra pagar as plásticas? Plano de saúde não cobre não, meu bem! E, ao final de tantas, imaginem os olhos aonde iriam parar? Os teríamos nas costas, literalmente. Seríamos uma nova raça, ou seríamos confundidos com ETs e mutantes e levados à laboratórios da NASA para estudo. Não daria certo, definitivamente. – e nem precisa falar que esta é a dramática.
- Vocês aí falando disso tudo aí na casa dos trinta… - fala a voz da experiência com no máximo 4 aninhos à mais – Eu, aqui dos quarenta, só olho e rio. Outro dia, pra vocês terem uma ideia, tive que pedir à minha depiladora pra tirar TUDO. É, de lá mesmo. A sádica, além da dor que me faz sentir, veio me falar com todo o jeitinho que tinha encontrado dois fios de cabelo branco, bem lá embaixo da linha do equador. Mandei arrancar na HORA!
- Ahhh… Podia ter deixado. Quem sabe não dava pra pintar? Ou pra passar um rímel pra disfarçar? Depilar tudo dói demais – falei compreensiva com a voz da esposa que, de vez em vez, faz todas as vontades do marido.
- Ficou maluca? Já pensou na hora do rala e rola? Se sai a tinta ou o rímel borra? Fica tudo preto! Como é que eu explicaria isso?
É, a gente é vaidosa e não gosta de envelhecer. Quer ficar linda pra sempre e fica reclamando umas com as outras de cada decadência física que ocorre, até mesmo as rugas no joelho nos são tão importantes. Damos dicas carinhosas do formato das unhas ao óleo de argan e explicamos, cuidadosamente, os efeitos colaterais do óleo de coco que, por mais dor de barriga que cause, todas queremos experimentar pra ficar magras. Mas não somos só isso. Essa mesma atenção que dedicamos à beleza física, que é fundamental segundo a voz experiente do poeta, dedicamos ao olhar. A um perceber o amor e a dor, é o mesmo dom da delicadeza que expressamos em diversas formas, que faz também, compreender as tristezas e as amarguras, que faz tão amoroso o nosso coração.
E como se enxergar tão bem é por vezes tão ridículo… Também rimos disso tudo, e do próprio espelho, porque somos pura e simplesmente , AS MAIS LEGAIS!







