À FALTA

À FALTA

Nós somos carentes. Sentimos falta, porque somos incompletos. E, ao mesmo tempo que isso é dolorido, pois precisamos do outro. É uma benção, pois precisamos do outro. Isso mesmo. É dolorido e ao mesmo tempo, uma benção.

Dolorido, pois tantas vezes nos machucamos ao pedir, tantas vezes não recebemos o que precisamos, tantas vezes precisamos enfrentar essa fragilidade trágica dos nossos corações… De se entregar e cair sem saber se há rede de proteção. Essa fragilidade de poder, à qualquer momento, estatelar a cara no chão. Essa nossa pequenez de precisar. Que nos leva à grandeza de pedir.

E, ao mesmo tempo, a mesma falta é o que nos leva a nos relacionar, a estar ao lado, a nos doar. É o que nos leva a sermos gentis, a abrir mão de nossos instintos mais tenebrosos e do nosso egocentrismo. Pois, afinal de contas, precisamos uns dos outros. Se eu preciso poder contar com você, você também deve poder contar comigo.

E, nesse paradoxo, caminhamos. Quando não decidimos nos fechar, nos esconder, fingir que somos só, pura e simplesmente perfeitos-autossuficientes-gentis, que não precisam de nada ou de ninguém pra sermos felizes. Que damos conta, de tudo e do todo sozinhos. E, caímos assim numa necessidade insana de controlar a tudo e a todos, pois não confiamos. Porque temos medo, porque estamos apavorados de que vejam a nossa fragilidade, que percebam a nossa necessidade, que muitas vezes, nós mesmos, não queremos olhar. E, pagamos aqui, o preço da solidão… E a conta dos antidepressivos da farmácia.

A verdade é que, tirando os Oshos da vida, todos nós precisamos. De abraço, de carinho, de aconchego, de cheiro, de cheirar, de beijo, de briga (brigar as vezes é demonstração de carinho e amor), de companhia pra ir no cinema, de jantar com a mesa farta de sorrisos, de alguém pra nos dizer o quanto engordamos, que precisamos estudar mais, trabalhar menos, alguém pra nos chamar de volta. De volta pro que é essencial, de volta pra onde está o nosso coração.

Afinal, a gente não se enxerga! À não ser diante do espelho, quando somos somente uma imagem projetada, cheia de poses. Mas, não nos enganemos, o mundo nos vê.

Eu acho que só nos relacionamos, só somos capazes de nos relacionar amorosamente, quando somos capazes de estar diante da nossa falta. Da nossa carência. Quando somos capazes de assumir o que precisamos do outro e suportamos estar neste lugar vulnerável, onde estamos à mercê, onde confiamos. E confiamos apesar do medo, apesar de saber que vamos nos machucar. Pois vamos nos machucar. Isso é inevitável. Não existe feliz pra sempre. Eu, inclusive acho que, pra ser feliz, é preciso aceitar que viver dói. Que não há como passar pela vida sem sentir alguma dor, sem ser frustrado. Isso é infantil.

A verdade é que precisamos. Precisamos de alguém pra amar.

Eu sou eu, você é você

“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.” Fritz Perls, 1969

A gente tem essa ideia louca de que só é amado se atender às expectativas dos outros, de que a gente tem que ser isso ou aquilo, ou fazer isso ou aquilo outro pra conseguir ou manter o amor de alguém por nós. Talvez um resquício da educação infantil em que o humor da mamãe e/ou do papai dependia do meu bom comportamento.

“Se você fizer isso vou ficar triste”, “Fico de mal de você se não fizer aquilo”…

O amor que sinto por você vai acabar se você não for perfeito, bem sucedido, diferente, especial, esperto, inteligente, bonito… E por isso a gente passa a vida toda buscando viver uma realidade que não é a nossa pra atender ao que querem de nós… Além de ser triste, desperdiçar a experiência de experimentar o que eu quero da vida, eu fico até um pouco brava com isso.

Fico imaginando o tanto de problema, o tamanho da infelicidade que isso nos causa. E o tamanho da loucura que essa ideia louca (repeti louca de propósito, que isso causa no mundo) A gente aprende a viver sem sentir a vida, porque se a gente sente, não aguenta. Precisa tomar 20 antidepressivos pra amortecer a saudade que estamos sentindo de ser a gente mesmo.

E, sabe… O amor está no encontro, só no encontro. No sorriso, nas lágrimas, no silêncio, na suavidade, na alegria, na tristeza, no paradoxo, em estar ao lado, só isso, só estar ao lado… E ele acontece quando tem que acontecer, quando existe realmente algo pra se encontrar. E o encontro só acontece realmente quando estou sendo eu mesmo diante do outro. E, muitas vezes o que eu faço ou deixo de fazer é diferente do que você pensa que é bom, do que é certo, do que é legal, mas a verdade, é que o que eu faço, ou digo, não sou eu. Eu sou só a minha presença, um estar aqui. Enquanto você está aí. E certamente, quando estivermos em relação algo vai me incomodar em você, e você se incomodará comigo, mas isso é só o nosso medo. A vontade de levar a vida de um jeito só.

 

 

UM BELO DIA RESOLVI MUDAR…

“Um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo que eu queria fazer… “

Resolvi cortar o cabelo, parar de me preocupar com o que o vizinho vai achar de mim, me livrar das expectativas, das sobre mim e das minhas. Lidar com o que está acontecendo agora. Agorinha…

Decidi parar de sofrer, de querer ser outra pessoa. Que mania essa de querer o tempo todo ser outra pessoa, de estar o tempo todo insatisfeito consigo mesmo… Enjoei. Decidi aceitar que sou só isso tudo mesmo. Algo pequeninamente genial. Absurdamente imperfeito. Alucinadamente sincrônico. Que não precisa se mover tanto, querer tanto, fazer tanto. Que pode ficar quietinha e inteirinha. E dançar! Bailar e girar pela vida afora.

Posso ser linda, leve, vento! Posso ser sagrada e louca. Menina e sábia, manhosa, enrolada, distraída, criativa, doída, horrorosa, monstruosa, bruxa, fada, mãe, esposa, Mulher, estudiosa, cozinheira, arrumadeira, professora, condutora, brincadeira, flor, malvada, mal falada, sedutora, lenhadora, quietinha, sorrateira, observadora, brava… Ou nada.

Aceito cada giro, cada parte, cada pedaço despedaçado de mim que junto e cato e que me fazem completa. Um círculo inteiro como o sol, feito de todos os raios de características que se compõem, se trocam, se encaixam, impõe, sobrepõe, contradizem, que posso usar, irradiar quando quero, preciso, ou sou acometida. Sou realmente, principalmente, acometida. E está tudo bem, está tudo fora de controle e muito bem.

Acho graça até do meu jeito que quer controlar quando aparece, pois vejo o medo que o constrói. Vejo essa vontade doida varrida de tentar colocar o mundo na palma das mãos, de fazer os outros participarem da brincadeira de bonecos da minha criancinha interna e tenho vontade de rir! Tamanha é a ilusão! Fazer caber o mundo na palma da mão! Se nem meus olhos são capazes de alcançar a magnitude do mar..

Até isso é pra mim aceitável. O medo. Mas não é o medo de querer que seja desse jeito. Mas o medo de não saber mesmo, porque não sabemos nunca é de coisa nenhuma. Não sabemos de nós mesmos… Como saber o caminho do vento? Mudamos o tempo todo de ideia. Mudamos as crenças. Os lugares, os gostos na boca, as necessidades, só não queremos ver, porque temos medo de deixar girar. E ficamos fingindo que o mundo cabe na mão (preciso repetir isso), que as ideias que temos são certas. Ou erradas.

É… Me deixar viver é enfrentar o medo. O medo de talvez de não ser amada. De dar uma cambalhota. Me deixar ser é abrir mão do medo de não ser aceita, querida, reconhecida, admirada, Barbie, boneco, robô e zumbi. É surtar, gritar, sussurrar, se jogar, brilhar, sujar, amar. Sem se julgar (?). Será que dá pra ficar um pouco frágil na vida? Pra aceitar que somos mesmo é frágeis sem tentar fingir tanto? Sem arrumar tantos subterfúgios (sucesso, beleza, carro, dinheiro) e ser só a gente mesmo? Sei lá…

Mas a verdade é que um belo dia resolvi mudar, e deixar o meu cabelo assim, como está.

O que me machuca

Outro dia fiz uma lista de tudo o que me machuca hoje na vida. De todas as coisas que eu faço ou deixo de fazer ou deixo fazerem comigo que me machucam.

Não fazer exercício me machuca, não beber água me machuca, não ouvir as necessidades do meu corpo me machuca. Não dar atenção suficiente aos meus filhos me machuca. Ficar sem ler me machuca, ficar sem escrever também. Deixar o jardim sem cuidar me machuca, esquecer de trocar a água para o cachorro me machuca.

Não passear com o cachorro me machuca, não ser atenciosa com as pessoas me machuca. Ficar muito tempo na internet me machuca. Me comprometer com alguém e não cumprir me machuca. Ter roupas que não me servem no armário me machuca. Não doar as coisas que não quero mais para as pessoas me machuca. Ficar juntando coisas em casa, ou sem fazer nada também.

Não visitar a minha avó me machuca. Querer ser reconhecida por qualquer coisa que eu faça me machuca. Insistir pra que alguém me ame me machuca, muito! Ficar esperando respostas me machuca. Falar demais machuca, falar demais sobre mim me machuca. Comer demais me machuca, parece que estou me punindo, que não gosto de mim.

Não comprar as coisas que eu preciso me machuca, comprar muitas coisas desnecessárias também. Ser tradada de forma leviana, ter meus sentimentos desconsiderados, me machuca muito. Quando eu não dou lugar ao que sinto também me machuco. E faço isso tantas vezes ao dia…

Julgar as pessoas me machuca, pois sei que cada um é o que é por causa da história que tem. Não colocar limites quando estou sendo machucada me machuca. Assumir o que eu quero e sinto o tempo todo me assusta. Machuca um pouco, mas não quero parar. Prefiro a verdade.  E imagino que incomode um pouco.

Vejo que o que mais me dói é pedir amor pra quem não pode dar e não dar o amor que tenho, ou sinto.

Olhar pra mim, ver o tanto que me machuco, me liberta. Apesar da percepção de que eu estou me machucando, me faz pensar que eu sou meio boba, também me dá o poder de mudar a situação.

Ciclos

Estamos todos aqui. E aqui e agora, nossos corações estão unidos.

Estamos todos de mãos dadas sob o sol, sob a luz divina.De nossas raízes, fortes e profundas retiramos a força da presença, da autorresponsabilidade, da terra. O sol aquece nossos corações e suspende a nossa dor, nos mostra. E, quando essa dor está à nossa frente, por alguns momentos não vemos mais o sol, o divino fica nublado, nossa consciência superior se escurece um pouco. Vem o vento e os raios. E sentimos a força da dor sobre nós, como uma tempestade que se forma. E ao nos apoiarmos em nossas raízes, uns nos outros, balançamos um pouco, nos sentimos um pouco assustados, mas continuamos aqui. Presentes e autorresponsáveis.

Então, a dor se precipita. Chora e cai sobre nossas cabeças, lava nosso coração, retira as folhas velhas, caem os velhos ciclos secos, viciosos. E entra na terra e agora, as nossas raízes se alimentam dela e a transformam em seiva.  Na seiva da vida, que nos ensina a superação dos nossos obstáculos. E, alimentados, novas folhas, flores e frutos crescem em nossa história. Novas sementes são plantadas e a vida se renova. O sol, o divino, novamente nos ilumina e aquece os nossos corações.

Até que estejamos prontos para novas tempestades.

Melhor olhar pra dentro

A gente é assim, não dá conta da própria dor e fica jogando nos outros, no mundo. A gente se sente maltratado, rejeitado, injustiçado, fica magoado e quer, de todas as formas, achar alguém ou alguma coisa pra culpar pelo que estamos sentindo. Porque queremos, de qualquer jeito, parar de sentir isso.

Então a gente joga pra fora. No mundo, nas pessoas que estão à nossa volta, às vezes nos que mais amamos, aquele sentimento que queremos excluir de nós. E me parece que o que cria esses sentimentos negativos em relação à vida e aos que vivem ao nosso lado é a sensação de não sermos amados. Essa sensação que está em nós e que os fatos do cotidiano insistem em nos lembrar quase o tempo todo. E que as pessoas com quem convivemos insistem em ativar em nós. E fazem isso, provavelmente, porque também se sentem assim.

Não estou defendendo aqui a submissão. Mas a aceitação de nossa condição humana, a compaixão por nós mesmos. E a auto-responsabilização. Estou dizendo da necessidade que temos todos os dias de fugir de nós mesmos. De não enfrentar como nos sentimos. De continuar nos machucando.  E aos outros.

A gente nunca vai conseguir, na verdade, fugir de nós mesmos. Não adianta tentar. Não adianta esparramar a nossa insatisfação na vida. Estamos fadados a nos suportar.  Melhor olhar pra dentro. Por mais que encontremos milhões de culpados e justificativas para o que nos acontece, para o que sentimos. Melhor olhar pra dentro. A culpa não é de ninguém. Melhor olhar pra dentro. A responsabilidade é nossa mesmo. Melhor olhar pra isso.

Olhar e ver que nem tudo o que nos acontece é pra nos machucar. Olhar e ver que nem todas as vezes que me sinto injustiçado, foi alguém que causou isso. Muitas vezes, creio eu que a maioria delas, fui eu mesmo quem criei. E passar a agir, não reagir. Se precisar, podemos nos defender, falar sobre o que está acontecendo, que não gostamos disso ou daquilo outro. Mas não culpar. Culpar não resolve nada. Culpar é dar poder ao outro, ao mundo, sobre mim.

Imagine que estou triste porque você não me convidou pra festa, porque promoveu alguém primeiro que eu, porque falou que eu sou feia, porque não respondeu uma mensagem, porque não me deu atenção suficiente, porque não me ama… Posso facilmente culpar você pela minha tristeza. Posso dar a você o poder sobre a minha felicidade.

Ou posso cuidar melhor de mim. Ou posso olhar pra dentro de mim e ver de onde vem isso. Essa dor, essa tristeza e decidir que o responsável pela minha vida sou eu mesmo. Sou eu mesmo quem tenho que me fazer feliz, sou eu que tenho que procurar os caminhos e as formas de encher o meu coração de alegria. E, ao invés de seguir nos suportanto, seguimos caminhando e cantando, nos amando.

Na minha vida está faltando ele.

“Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele, está doendo em mim…” Está faltando ele na mesa, no grito do gol rubro negro, nos palpites do almoço de domingo, nas longas conversas sobre a vida, no incentivo à poesia… Está faltando ele abrir a porta, estão faltando os conselhos dele, a preocupação com nossa saúde, o carinho, as broncas, as balinhas que chegavam do nada. Falta alguém pra me falar como é lindo o modelo novo daquele carro…

Está faltando ele nos passeios de bicicleta, está faltando ele conhecer os meus filhos, minha casa, meu cachorro novo, o orgulho dele pelas conquistas novas da minha vida. Está faltando a opinião dele sobre gatos. Falta o telefone tocar e ser ele me convidando pra jantar em algum lugar, ele chamar pra eu ver o que está passando na TV, as roupas dele no armário, os abraços, as risadas sarcásticas.

Falta aquela segurança, sabe, de saber que eu sempre, em qualquer situação, tenho com quem contar. Falta brigar, discordar, discutir. Até isso falta, eu quero ouvir o que ele tem pra me falar. Mesmo que eu não fosse gostar. Falta ele implicar, reclamar, elogiar. Falta a verdade dele na minha vida. O incentivo dele pra qualquer coisa que eu vá fazer… Falta a torcida enorme pra que eu seja feliz. Pra que eu faça o que for, mas que eu seja feliz…

Falta o cheiro dele pela casa, o chinelo do lado da cama, o barulho dos passos dele chegando, a voz dele. Eu sinto falta da voz dele… A alegria, falta um pedaço da alegria de estar todo mundo junto, sempre. Porque desde que meu pai se foi, todas as vezes que nos reunimos em família, fica faltando um pedaço da alegria de estarmos todos juntos.

E está faltando ele aqui, pra comemorar o dia dos pais comigo. Falta comprar o presente pra ele. Falta não saber o que comprar, ter medo dele não gostar. Falta a possibilidade de querer agradar. Está faltando poder matar a saudade.

Tem essa cadeira vazia no meu coração. Na minha vida está faltando ele. E essa dor é tão doída em mim.

E, eu olhando pra tudo isso que falta, sem conseguir ver nada direito, de tanto lembrar e chorar, penso também no tanto que tive. E isso me conforta…  No tanto que eu amo meu pai, no tanto que ele me amou. Essa saudade, essa falta, só está aqui, porque meu coração já foi cheio.

Lânguido amor

Tem uma coisa sobre os relacionamentos que eu acho engraçado. Nos meus também. É a gente o tempo todo tentando mudar o outro. A gente o tempo todo querendo que nosso companheiro seja isso ou aquilo diferente. Mas só um pouquinho diferente… Só um tiquinho tão tico que não vai fazer diferença…

A gente quer mudar o guarda roupa, o corte de cabelo, diminuir o tempo da pessoa no chuveiro! (esse absurdo não conto quem fui!) A gente quer que o outro trabalhe mais, trabalhe menos, vá para a faculdade, coma salada, faça dieta, guarde o detergente embaixo da pia, faça sexo pelo menos 3 vezes por semana, já que essa é a média nacional.

E sabe por que eu acho engraçado? Porque a gente está querendo mudar a pessoa pela qual nos apaixonamos! Tipo um paradoxo gigante! Se nos apaixonamos pela pessoa, quer dizer que algo em nós acha que ela é ideal pra nós, que nos sentimos confortáveis diante dela, que temos prazer com ela. Aí, depois de um tempo juntos, a gente quer que aquele mesmo ser pelo qual nos apaixonamos, seja outro. Pra que? Não faz o MENOR sentido! Depois as pessoas querem saber por que o tesão nos relacionamentos diminui com o tempo. Taí uma resposta plausível: a gente muda o que a gente adora e depois quer continuar adorando o que não é mais aquilo.

E a gente muda sem pensar nas consequências. Vai que mudar uma característica provoca a mudança de várias outras. Vai que eu me apaixonei pela tranquilidade do meu namorido, por uma certa languidez, um ar meio distante… Quando encho o saco dele pra tomar banho mais rápido, como num castelo de cartas, uma característica empurra a outra e ele acaba se tornando um animador de torcida? Como vou continuar com ele? E… Como ele vai continuar com uma pessoa tão chata quanto eu?

É comum isso, muito humano, e sinto realmente que muitas vezes que tentamos mudar nosso parceiro, estamos fazendo por amor, pelo bem dele – ou pelo nosso… Mas que não é inteligente, não é. E até acho meio infantil… E como querer desenhar por cima daquele ogro (a) pelo qual nos apaixonamos, o príncipe encantado. É como querer que os contos de fada existam na nossa vida, que as pessoas com quem estamos nos relacionando sejam meros personagens da historinha linda e perfeita que inventamos na nossa cabeça, e, à qual, atribuímos nossa felicidade. Tipo: só vou ser feliz quando isso for perfeito assim.

Não! Quanta bobeira! A gente já é feliz com o sapo! No brejo! Não é só o perfeito que nos faz feliz, inclusive, às vezes, o perfeito demais é chato!

Quando temos tantas expectativas a respeito de alguém, quando queremos que esse alguém se torne outra pessoa, perdemos o contato com ela. Pois não a vemos. Estamos olhando para o que gostaríamos que fosse. Para o que gostaríamos de ter. Não para o SER que está ao nosso lado. Não para o ser pelo qual nos apaixonamos.

Acho  que, no amor, precisamos aprender a cultivar a liberdade.

HOMEOPATIA EMOCIONAL

Negamos nossos sentimentos… O dia inteiro. Entendemos, não sei por que exatamente em algum momento da história, que existem sentimentos negativos e positivos. Como se classificássemos as cores em boas e más:” – Olha, escolhe o azul pra pintar a sua casa, pois o vermelho é uma cor muito malvada… “ Vermelho é só vermelho, azul é só azul! Alegria, tristeza, raiva, amor, são só sentimentos. Não estão aí para temê-los, ou esconde-los, ou nos envergonharmos deles, mas para nos indicar algo. Sentimentos são como a música que o coração toca para sinalizar o caminho que precisamos seguir, que queremos seguir. Pra sinalizar quem nós somos.

E, pior, agimos como se fosse realmente possível escolher como nos sentimos. Acordamos tristes e passamos o dia a jogar confete nas pessoas à nossa volta. Guardamos a tristeza em uma caixinha preta bem no fundo do nosso coração e seguimos fingindo que nada está acontecendo. Até o dia em que essa caixinha enche, estoura, e, aí, não conseguimos mais controlar nada… Então não me admira a quantidade de gente deprimida… A quantidade de crimes, a ira das pessoas.

Ninguém fala o que precisa ou como se sente e fica fingindo o tempo todo que está tudo bem. Eu me pergunto, para que? Pra mostrar que sou a pessoa mais fantástica do mundo e pra todo mundo gostar de mim, eu me desrespeito o tempo todo? Eu não acolho como me sinto? Eu passo a vida expressando algo que não sou? Ou não estou? Pois os sentimentos são temporários. E, cada um tem a sua função.  Eles indicam o que gosto, o que não gosto, se estou me sentindo invadido, ou querendo mais.

A raiva, por exemplo, serve para nos proteger. Pra colocar limites, pra expressar um descontentamento. Se usamos a raiva com atenção, e, proporcionalmente ao fato que está acontecendo, temos uma grande aliada da felicidade. Pois ninguém é feliz sendo invadido e abusado e se sentindo desvalorizado o tempo todo.

Já a tristeza, pra mim, tem uma função de honrar o que é importante pra nós. De nos mostrar onde está a nossa dor, do que precisamos abrir mão, nos ensina a dar valor ao essencial, muitas vezes depois que já perdemos…

E, quando não assumimos nossos sentimentos, não aprendemos a lidar com eles. Se guardamos toda raiva que sentimos, como vamos saber a medida quando nos irritarmos? Será que usaremos na medida certa? Creio que não. Creio que qualquer fagulha explodirá o barril inteiro.

Penso que reprimir como nos sentimos não nos ajuda a sermos pessoas melhores, vejo isso como uma ilusão da geração auto-ajuda. Acho que o que realmente nos ajuda é assumir quem somos e nos respeitar, assumir como estamos agora e deixar passar. Ser verdadeiro nem que seja só conosco mesmo. Acredito que doses homeopáticas de sentimentos, demonstrados de acordo com cada momento da vida, podem nos deixar, e ao nosso redor, melhor, mais inteiros, com auto-estima verdadeira, pois, de onde vejo, quando nos mostramos, estamos nos valorizando.

Claro que se persistirem os sentimentos que causam desconforto, um médico deverá ser consultado.

METAS

Chegamos ao meio do ano. 17 de julho e eu não emagreci, o Brasil não ganhou a copa, meu armário não está arrumado, não aumentei a renda em 30%, quanto mais em 50%. Não viajei pra Dinamarca, não viajei pra Milho Verde ainda… Não consigo cumprir todos os itens da agenda semanal, não troquei o carro pelo vermelhinho dos meus sonhos, até porque não tinha dinheiro. Não parei de brigar com o meu marido, não consigo dar conta de corrigir, todos os dias, todas as tarefas dos meus filhos, nem de ligar no aniversário de todos os meus amigos. Creio que não liguei para nenhum esse ano. Não consegui nada do eu queria!

Já chegamos na metade do ano… E... Eu NÃO bati nenhuma das minhas metas. Nenhuma mesmo!E graças a Deus por isso! 
Quanto mais amadureço mais aprendo a fazer planos e não me torturar quando nada acontece! Ter fé e ser entregue é saber que a vida é como uma montanha russa…
É sábio e muito digno da felicidade aquele que aprende a se divertir com os altos e baixos… Cultivando aquele friozinho na barriga, das expectativas enquanto estamos subindo, aproveitando a vista e consciente de que vai descer!
Mas quando desce, há muita diversão, quando simplesmente há entrega à impotência da nossa vontade, frente ao que a nossa fé nos reserva.
Sou tão grata por tudo de maravilhoso que Deus tem permitido em minha vida! E, se perguntarem se os planos estão se concretizando, eu digo que nem eu pensaria tantas coisas boas para mim!” (Denise Gabriela Rodrigues)

Porque decidi que agora ao invés de querer e me esforçar tanto pra conseguir o que penso que quero, vou aproveitar o gosto, o gostoso, de cada um dos dias com a surpresa que tem dentro, vou aproveitar cada momento, do jeito que ele vier e vou estar comigo, do meu jeitinho santo ou louco de agora, sem querer me mudar. Vou aprendendo, desfrutando, fazendo o meu melhor e me reestabelecendo das intempéries da vida. Dessa vida louca e deliciosa vida.

Deixei as pretensões de lado e só sigo o que se apresenta. Só olho pro que está logo ali na frente e me desintegro no presente. Faço parte. Não que não tenha sonhos, claro que tenho, não que fique parada esperando a vida passar, não. Só não sou tão rígida, tão exigente com as ideias  que tenho a respeito das coisas. Ideias são só ideias, pensamentos não existem. Prefiro experimentar a realidade que muitas vezes não é o que planejei. Mas é muito mais gostosa, ou proveitosa, mesmo que amarga. Assim, tenho aprendido a ser feliz, e triste quando a situação me abala, e firme, quando é o que me exigem as coisas da vida. Tenho cuidado melhor de mim, tenho sentido mais amor por mim…

“E que este ano – resto dele –  traga tudo o que seja bom pra mim, independente do que eu queira” (Denise Gabriela Rodrigues)