As Mais Legais

21 de janeiro de 2012

Até ontem eu tinha 35 anos. E estava me achando ótima. Uma delícia cremosa, uma jovem livre, que não tem que dar satisfação à mais ninguém, nem mesmo aos próprios vizinhos. Com energia, disposição e desprendimento (fruto de suficiente terapia) pra fazer o que quiser.

Mas então, eu fiz aniversário. 36 e entrei em pânico. Meu marido, que não entende nada das crises existenciais das mulheres, como homem nenhum entende, me disse, simplesmente, sem complicação nenhuma – o que não me serve pra nada:

- Uai, pra quem tinha 35 ontem, 36 não é tanto assim…

Ah, não é! 35 é trinta e poucos. 36 é trinta e TANTOS! E já que o digníssimo não foi suficientemente compassivo com minha loucura, fui tomar um chá com as amigas, que além de compreender completamente o que não faz nenhum sentido, são solidariamente empáticas a mim.

- Imagine que agora eu tenho rugas no joelho. – disse a mais perfeccionista, se é que dá pra notar – E olha que sou 3 anos mais nova que você! Fala sério, é por isso que você só usa vestidos longos, não é?

- E vocês viram que saiu na revista que o homem que viverá 150 anos já nasceu? Legal, né? – falou uma com tranquilidade desnecessária.

- Que legal o quê! Eu não quero ficar pra semente. Se for um homem mesmo, do sexo masculino, até que vá lá. Mas para uma mulher ou um metrossexual não daria certo de jeito nenhum. Imagine o quanto teríamos que trabalhar só pra pagar as plásticas? Plano de saúde não cobre não, meu bem! E, ao final de tantas, imaginem os olhos aonde iriam parar? Os teríamos nas costas, literalmente. Seríamos uma nova raça, ou seríamos confundidos com ETs e mutantes e levados à laboratórios da NASA para estudo. Não daria certo, definitivamente. – e nem precisa falar que esta é a dramática.

- Vocês aí falando disso tudo aí na casa dos trinta…  - fala a voz da experiência com no máximo 4 aninhos à mais – Eu, aqui dos quarenta, só olho e rio. Outro dia, pra vocês terem uma ideia, tive que pedir à minha depiladora pra tirar TUDO. É, de lá mesmo. A sádica, além da dor que me faz sentir, veio me falar com todo o jeitinho que tinha encontrado dois fios de cabelo branco, bem lá embaixo da linha do equador. Mandei arrancar na HORA!

- Ahhh… Podia ter deixado. Quem sabe não dava pra pintar? Ou pra passar um rímel pra disfarçar? Depilar tudo dói demais – falei compreensiva com a voz da esposa que, de vez em vez, faz todas as vontades do marido.

- Ficou maluca? Já pensou na hora do rala e rola? Se sai a tinta ou o rímel borra? Fica tudo preto! Como é que eu explicaria isso?

É, a gente é vaidosa e não gosta de envelhecer. Quer ficar linda pra sempre e fica reclamando umas com as outras de cada decadência física que ocorre, até mesmo as rugas no joelho nos são tão importantes. Damos dicas carinhosas do formato das unhas ao óleo de argan e explicamos, cuidadosamente, os efeitos colaterais do óleo de coco que, por mais dor de barriga que cause, todas queremos experimentar pra ficar magras. Mas não somos só isso. Essa mesma atenção que dedicamos à beleza física, que é fundamental segundo a voz experiente do poeta, dedicamos ao olhar. A um perceber o amor e a dor, é o mesmo dom da delicadeza que expressamos em diversas formas, que faz também, compreender as tristezas e as amarguras, que faz tão amoroso o nosso coração.

E como se enxergar tão bem é por vezes tão ridículo… Também rimos disso tudo, e do próprio espelho, porque somos pura e simplesmente , AS MAIS LEGAIS!

Desamor (inexistente)

19 de janeiro de 2012

Eu estive pensando, aliás, eu estou sempre pensando…

Acho que eu entendi grande parte do que me aflige, e se me aflige, pode te afligir também, tendo em vista que somos todos tão humanos e nossas dores e amores são sempre tão iguais. Profundamente tão iguais apesar dos enredos divergentes. É como aqueles seriados enlatados que mudam-se os nomes e as histórias laterais, mas na essência, o que acontece é sempre o mesmo. O miolo idêntico.

Vamos lá ao que me incomoda, pois estou enrolando, só pra não encarar de vez essa tragédia: é que não acredito no amor.

Pensava antes que era que eu não sabia amar, mas hoje, dirigindo meu carro, decidi que o amor é inerente. Sem amor nada haveria. Nada eu seria. Qualquer sentido não existiria. O amor é a cola das células, a junção das estrelas, a órbita das danças, a interligação das almas, a energia da vida.

E sendo o amor inerente a qualquer coisa, a qualquer intuição, a qualquer cheiro, o que muda é a minha incapacidade de compreender, a falta de olhar, o meu não acreditar. A falta de fé. A falta de mim, que também O sou.

Vivo em um estado quase constante de desamor. Armada – pois o amor desarma. Buscando giratoriamente o que já está. Procurando sentido no que É. Destrinchando a inteireza. E tentando desesperadamente conseguir uma prova da própria Fé, em si mesma. Olho pra alguém já com a expectativa de me frustrar. E a profecia interna se realiza e eu confirmo a falta do amor e reajo com outra rajada de desamor. E nessa loucura, vou criando ilusões pra justificar a exclusão que já sempre sentia. Muito antes do fato, que agora me contagia.

Tipo quando uma amiga querida que não liga no aniversário. E eu sinto que ela não se importa com a importância que imagino que deveria ter em seu coração… Tipo quando eu quero que o meu chefe reconheça a grandeza do meu trabalho, o marido perceba o esforço que faço pra ter tudo em ordem, a vizinha veja que a minha casa é arrumada ou a sociedade me diga o quanto sou sempre tão legal e feliz e competente e bonita e magra e sem rugas apesar da idade (que eu NÃO conto)- como se qualquer dessas buscas pudesse tapar o buraco.

Tipo o quanto me gasto buscando amor fora, no resultado por tudo, tudo o que fiz e faço. A energia que vaza pra eu provar o que sou, quando o que faço assim, neste modelo, é não ser – esperar, expectar, me estraçalhar. Porque o que sou, está.

Percebo que estaria tudo mais leve se eu simplesmente seguisse o meu caminho, ouvindo os próprios passos. Se silenciasse todo o barulho que faço na cabeça gritando por coisas para substituir o que realmente quero, COISAS que tragam reconhecimentos, sorrisos sem gosto, grandezas milimétricas, plenitudes que duram segundos… Buscando o que já está aqui, em mim, no meu coração, basta escutar, expressar.

Se eu puder ser o amor que já é, que já está, sem esperar que ele venha. Se eu puder confiar e ouvir de quem realmente sabe, do meu coração. Se eu abrisse mão da força que gasto para matar cada um dos setecentos e cinquenta e quatro leões a que me propus pra ter a honra que eu quero que você ache que eu valho, quando, em verdade, eu mesmo não acho.

É a falta de confiança no amor faz com que eu crie ilusões acerca do mundo. E defesas. É o medo que preenche com coisas o espaço do contato. E é isso que aflige.

 


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Confesso que surtei

11 de janeiro de 2012

Eu tenho crises existenciais e matrimoniais. E todos os outros mortais, além de mim, também, imagino. E até torço um pouco por isso, tendo em vista que assim, o meu fardo de histeria fica menos pesado. Nenhuma relação é perfeita, e todo mundo, uma hora ou outra vai surtar. Eu confesso que surtei.

Ontem, depois de três dias inteiros esperando o marido que tinha combinado comigo de sair para um jantar romântico pelos 13 anos de namoro e me deixar esperando por três horas inteiras, pronta, eu surtei. Foi assim, gradativamente, sem querer me jusificar e já me justificando…

No primeiro dia, ele chegou e eu, humildemente, fui dormir. Lógico que deixei que me visse pronta e maquilada antes. Até um pouco magoada, pra impingir ao menos uma gota de culpa no causador de tanta espera.

No segundo, eu esperei que ele chegasse e conversei, séria. Disse o quanto é chato esperar, como me senti enfadada, se ele iria gostar de ficar esperando 3 horas sem nenhuma satisfação, perguntei se não tinha telefone, se não acha que assim estava me desmerecendo demais, porque pra mim, parecia. Fiz igualzinho aprendi com meu terapeuta, deixei claro como me sentia com seu comportamento, sem responsabilizá-lo pelo resultado. Pelo menos tentei, mas quando ele  se levantou pra ir à cozinha, olhei no espelho e fiz uma certa chantagenzinha emocional, pequena, deixando cair umas lágrimas e duas fungadas enquanto tirava a roupa e passava o demaquilante em frente ao espelho. Claro que ele veio me abraçar e eu não aceitei as desculpas que pedia. Precisava de um tempo, explicitei madura.

Na terceira noite, quando ele entrou no quarto, atrasado, de novo e mais uma vez, foi quando eu surtei. Sentada na cama, chorando como estava, fiquei. Fulminei-o com meu olhar vermelho e, com ódio, joguei o relógio na parede. De todas as coisas ao alcance de minha mão, escolhi o relógio despertador que comprei na loja de 1,99. Afinal até pra surtar, precisamos de um pouco de razoabilidade. Imagina se jogo o ipod? Ou o notebook? Ou meus livros tão queridos que descansavam na mesa de cabeceira?

Agora pergunta como foi o quarto dia?

Romântico. No quarto dia o jantar foi romântico. Ele abriu a porta do carro, puxou minha cadeira no restaurante, olhou pra mim como se eu fosse a mulher mais linda do lugar (o que, aliás, todos os homens deveriam fazer todas as vezes que levassem uma mulher pra jantar, porque apesar de sermos pós-modernas e auto suficientesdas, gostamos de ser tratadas como princesas pelos namoridos). Nos beijamos em público, olhamos nos olhos e esfregamos os pés nas respectivas pernas por baixo das toalhas do restaurante. Fomos pra casa e nem conto o que houve entre as quatro paredes. Foi tudo perfeito.

Se eu concordo com escândalos? Claro que não. Mas que funcionam, às vezes funcionam. 

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

Em 2012, nos renovemos!

29 de dezembro de 2011

Não, eu não te desejo tudo de bom no ano que vem. Porque o que eu desejo é uma coisa que eu quero, não você. E tudo de bom, toda a felicidade não é algo que acontece no mundo real. O mundo tem problemas e dificuldades e relacionamentos e fracassos e rotinas, mas mesmo assim, cheio de tudo isso, dependendo de onde se olha, pode ser fantástico. E, ademais, o que eu te desejar não vai mudar nada, só você muda a própria história. Então, farei uma proposta.
Eu proponho que o ano que vem, você consiga ver que a vida é um pouco insatisfatória, mas mesmo assim é uma dádiva. E há momentos simplesmente emocionantes, que por si só já valem a pena. Como o nascimento de nossos filhos, ou mais simples ainda, o nascimento dos gatos na cama de nossos filhos. Portanto, vamos parar de reclamar e encarar cada dificuldade apenas como um desafio, que nos torna mais fortes.
Eu proponho que no ano que vem você aja nas mudança que pretende para você mesmo. Que comece mesmo a dieta no dia primeiro, que pare de fumar, que agende a bendita viagem a Paris, se for isso o que mais quer. Mesmo que tenha que enfrentar as manias do passado, as ansiedades em relação ao futuro. Porque nos encontramos com o presente quando enfrentamos o passado, e resolvendo-o, seguimos em frente. Mas, a propósito, não vai ser fácil.
Proponho que veja o seu maior medo de frente, assim, olho no olho. Pois é encarando-o que achará a coragem. Imaginem, se conseguir vencer sua MAIOR dificuldade? O que mais poderá te impedir de realizar seus sonhos? Mas se fingir que ele não te pertence, que não está ali, se continuar dando a volta no que deseja para não ter que enfrentar a vida, ficará liso, sem as ranhuras necessárias, que nos tornam humanos.
Proponho também que deixe espaço, feche as questões pendentes, por mais dolorido que isso possa parecer. Diga que ama a quem amar, assuma seus erros e peça perdão se magoou, limite o acesso a quem te odeia. Afaste-se o tanto merecido de cada um, de acordo com sua capacidade de amar. Dê a Cezar o que é de Cezar e à Josefina, a fofoca!
Que exponha suas vergonhas, pra que todos saibam quem é de verdade e possa pisar na terra com os pés inteiros, sem metades, sem estar por partes. Chega de gastar energias em esconderijos emocionais. É tão óbvio! É você quem não se aceita, não os outros. Proponho que se ame.
Eu proponho que procure a dor de todas as coisas que fazem com que seu peito arda. Enfrente isso, conheça este buraco vazio, se acostume com ele, honre-o, enfie-se um pouco lá por dentro se for preciso. Mas não se entorne no buraco. Qualquer angustia passa se você for capaz de ouvir o canário entoando ao fundo.
Proponho que se entregue, que mostre qualquer fragilidade, que fale de sentimentos reais. Que faça planos que possam ser desfeitos em qualquer noite, pois a vida gargalha sempre mais alto que nossa imobilidade.
Proponho que se responsabilize, que pare de se achar uma vítima das mazelas do Universo e mude. Pois só com responsabilidade somos livres, e blábláblá, do contrário, somos prisioneiros de nós mesmos. Já ouviu isso? Eu também, há muitos anos na terapia, mas então faça!
Encontre coragem pra enfrentar os desafios, encontre sabedoria pra ser raso ou profundo, dependendo do que a vida lhe exigir.Ria de algumas tristezas, se afogue em tantas lágrimas, use a marcha certa. Siga em frente.
Que o 2012 seja novo, que você se renove, pra que o ano ao seu redor faça o mesmo.
Eu também!



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Sobre a força

28 de dezembro de 2011

Ser forte não é submeter os outros, ser o mais competente, o super legal, o mega inteligente, o blasto importante, o que consegue alcançar tudo o que quer.

Ser forte é mostrar quem a gente é.

E mostrar quem se é, o sentimento real, requer também fragilidade pra pedir, pra se entregar ao seu amor, pra dizer que não consigo sozinha, que fracassei, que preciso de ajuda – quando for isso que eu estiver sendo agora.

Demonstrar fragilidade requer muito mais coragem do que a conquista. Ela é um atributo raro, dos que são realmente fortes.

 


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Feliz Natal!

23 de dezembro de 2011

É como se nessa época, meu coração que esteve espalhado durante todo o ano, se juntasse, me encontrasse…

O Natal é um momento de estar junto, de estar com nossas origens, a  família e os amigos mais queridos. É quando nos nutrimos do amor que aprendemos na infância e que trazemos para a vida, pra seguir inteiros rumo ao novo, ao futuro que começa na semana que vem.

É o tempo de estar com o amor que sentimos nas discussões sobre quem é o filho preferido, na mágoa de quem ganhou o pior presente, na euforia das crianças diante de um papai noel inventado. Amor de tradição, numa mesa comprida cheia de comidas gostosas, que alimentam além do corpo, a alma. Pois a alegria do encontro está entranhada no peru que levamos todos os anos pra ceia, no doce do panetone de frutas cristalizadas, que ninguém come…

Amor que está no abraço apertado da prima, no ponta pé na canela da sobrinha ranheta, na visita do amigo que foi morar tão longe, mas que está tão dentro ainda… No cheiro de pum no quarto escuro onde estão todos tão embolados, tão juntos e misturados. Amor com gosto do macarrão com carne assada, do feijão cozinhado no  fogão da vó desde antes de eu acordar.

Amor que se ouve na cantoria das tias desafinadas, que não tem nada de Gal e Betânia, sinto muito, mas tem muito de adoradas pelo coração enorme que inclui toda a família. Amor irritante que percebemos  na crítica do avô cuidadoso, que não aceita o nosso namorado novo, e amor intrigante, que já temos pelo  filho do primo que nunca vimos, mas que estava ali, mesmo antes de cruzarmos qualquer olhar.

O amor que dói a saudade mais doce dos que subiam na mesa pra animar a festa e agora não estão mais. Amor desejo de juntar tudo o que há, daqui até a Dinamarca, ultrapassando o céu estrelado onde meu pai  hoje mora com os anjos. Amor que joga os agregados na piscina, com carteira e tudo, e das gargalhadas que nascem desse batismo. Amor de descascar pinhas quentes, num sorriso silencioso do quintal.

Amor de vontade de padrinho, de painho, das rabanadas indizíveis. Amor dos merengues de banana pra alcançar o coração dos maridos mais gulosos. Do olhar brilhante para a caixa gigante debaixo da árvore, que era o meu maior presente.

É nessa época em que todo esse amor se manifesta, se junta, me encontra. E é todo ele que me faz sentir que eu sou uma parte de cada um que já esteve comigo, de todos que passam na minha vida, e que eles também carregam consigo um pedaço do meu ser, do meu coração… É esse amor que me ensina a lição mais linda: Que somos todos feitos de uma só essência, que estamos todos conectados numa teia invisível, onde cada vida é totalmente dependente da outra, que somos uma só alma.

Feliz Natal de Amor e Luz!


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Sobre os sapatos

22 de dezembro de 2011

Ela viu um sapato na vitrine, perfeito! Ela achou. E todos os dias ela passava por aquele caminho e via o mesmo sapato e pensava em comprá-lo… Mas isso estouraria todos os seus limites, de todos os cartões…
Apesar de seus olhos brilharem, ela nunca teve coragem. Então, decidiu mudar seus caminhos, refazer todas as rotas. E quando a perguntavam o porquê havia tornado tudo diferente, ela dissimulava. Não poderia assumir que havia mudado tudo por um par de calçados. Mas no fundo ela sabia, só ela, que agora pagava o preço de não ter se arriscado a comprar o sapato… Nunca mais passaria por aquela antiga rua, cheia de margaridas…

E em algumas noites de insônia se perguntava, não conseguia evitar:

- Qual seria o preço mais caro? 


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Conversinha de antes…

18 de dezembro de 2011

- Ai amor, que preguiça…

- Mas você não precisa fazer nada, só relaxa…

 Relaxar pra aumentar a tensão…

 


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Boas férias mamães

18 de dezembro de 2011

‎- Meu filho, vamos sair do computador… Você jogou o dia inteiro!
- Não joguei não, mãe.
- Mas eu vi você jogando…
- Não joguei o dia inteiro mãe, eu parei pra fazer xixi.

Estou destemperada, desalinhada, desarrumada! Sem tempo, sem existência, sem consistência! Minha unha nunca mais foi pintada, a TV está tomada, os armários me desafiam… Amiguinhos remelentos invadem a minha sala, papéis de bala se espalham pelo chão enquanto cáries se divertem nas menores bocas. Cães e pássaros se esquivam e até o sol resiste em dar o raio da graça!

Apareço inconsciente, impaciente, invisível! Inexistente, descabelada, mal passada… Deixei de ser qualquer coisa que me lembre de mim pra me tornar especialista em pipocas espaciais, em brigadeiros animais e elucubrações intergalacticas. Compreendi profunda e coativamente o conceito de Vilgax, interpelei à santa Pixar por mais desenhos…

Ausente! De mim, pois aqui, estou que é só presente! Cheia de atenção, sem razão, comprando brincadeiras no atacado. Ilustrando muros, transbordando lições de moral acerca do fato de que os gatos estão vivos, e não são mais um dos 3.457 brinquedos desfalecidos pelo quarto.

Férias!

E todo o tempo do mundo é pouco para o número de vezes que eles gritam mamãe! Toda paciência é mínima para a quantidade de laranjas que preciso descascar. Não há voz que consiga enviá-los para o banho, nem tranca de porta capaz de isolar a altura das gargalhadas. Digo mais “nãos” que o universo em infinitude é capaz de comportar e toda disposição é pequena diante da alegria de correr e brincar!

Tanto picolé é pouco pra toda aquela imaginação! Não há silêncio que sobreviva à tamanha felicidade, nem há psicologia infantil que suporte a quantidade de  brigas. Não existe play station que dê vazão a toda energia, nem inteligência criativa capaz de inventar suficientes atividades…  Não há vassoura capaz de limpar a euforia que espalham pela casa…

Mas é só por um instante… Um instante bimensal em cansaço e amor profundo, em gritos guturais e abraços colossais, em flores entregadas e palavras mal criadas. Em beijinhos de bom dia e castigos de fim de tarde…

E eu me rendo ao sorriso que brota no meio da bronca, da espontaneidade da resposta mais pura. Me encanto com o choro que leva ao abraço gostoso, tão perto do coração. Me paro pra ouvir as histórias mais lunáticas contadas do mar profundo na mente ventante… Porque não há mais o que fazer, senão rir junto, gritar também, jogar tudo para o ar.

Não há nada melhor que os filhos por perto!

Nada… Ai que vontade de não fazer NADA!

Melhor, tive uma ideia mais genial… Vou ali dar uma trabalhadinha básica e volto já, já! Logo assim que fevereiro chegar!

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Talentos

10 de dezembro de 2011

Quantos talentos desperdiçamos todos os dias?

Isso mesmo. Para justificar nosso desejo de incompletude, desperdiçamos dons. A fim de sermos “completados”, abandonamos a auto-realização.

Assim, temos como jogar a culpa do que nos acontece no outro, temos desculpa para sermos mesquinhos.

Quanto de nós não oferecemos ao mundo?

É. Só pra provar que estamos certos, quando não sei quem fez nem sei o quê que eu não gostei nem um pouquinho, guardamos o melhor de nós mesmos. Enterramos nosso coração e alimentamos dentro de nós essas mazelas. Apodrecemos.

Quanta plenitude nos negamos?

Então… Pra distrair os outros do nosso lado negro, apontamos o dedinho pra lá. Nos fazemos de coitados, permitimos sermos humilhados, destruímos personas.

E, ocupados com isso, que nos toma toda a energia, deixamos de lado a própria caminhada. Esquecemos o que realmente queremos. Fechamos os olhos pra tanta beleza…

Quanto amor escolhemos não amar?

Talvez pra provar pra alguém que, “tá vendo? Você não me deu a sua parte, também não te dou a minha”, ficamos nessa engrenagem maluca de eu só te dou o que (e se) você me der. Só te amo se me amar primeiro e, assim, não perdemos só o outro alguém, mas nos afastamos é de nós mesmos. Essa é a solidão…

É que eu só acho que agimos, muitas vezes, contra nossa vontade pra provar pontos de vista pre-determinados, pre-conceituosos, que não levam a lugar algum… Mas em verdade, cada parte tem seu lado. E se furtar de um, não é se entregar a qualquer outro, mas passar a ser eu mesma.

Agora deixa isso pra lá! Vem pra cá, o que é que tem?

Vamos fazer diferente! Sejamos completos em cada um pra nos aproximar inteiros de alguém. Se este um não quiser, nos aprocheguemos de outro! Vamos entregar o melhor que há em nossa alma, deixar o coração sem pele. Trilhar a própria caminhada e escolher as estradas que apontam para os nossos dons. Criar, para encontrar novas oportunidades. Abrir o ser pra toda beleza e para cada flor que nos sentirmos impelidos a dar. Amar!

É, eu sei, já explicaram isso há muito, muito tempo atrás… Mas até hoje, ninguém parece ter realmente escutado (nem eu). Não custa insistir (comigo também).

Publicado 16/12/11 no Jornal Vale do Aço.


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