Ignorada no WathsApp

Eu, esse ser humano excepcional, incrivelmente especial e essencial para qualquer pessoa que entre com contato comigo, fui ignorada no zapzap. Dá pra acreditar?

Dá pra acreditar que eu, o centro do universo em pessoa, não fui imediatamente respondida quando, amorosamente, veja bem, amorosamente, fiz diretamente uma pergunta a um outro ser humano? Dá pra acreditar?

Eu não acredito. Não posso acreditar. E, não quero acreditar. Não quero acreditar que posso não ser especial, tão legal ou tão importante quando eu imagino. Não quero ver que sou tão humana e tão igual a todo mundo. Não quero experimentar o gosto amargo de não ser tão querida. Não. Não posso aceitar isso. Como assim não sou amada? Como assim? Ah… Essa pessoa é que não me merece, eu sou especial. Hum… Mas não pra ela.

É, pra ela, eu não sou nada. Não significo nada. E eu não quero sentir isso. Não quero aceitar isso. Não quero olhar pra essa dor de não ser nada. Mesmo que só pra uma pessoa.

Dói. Me dá a sensação de estar sendo humilhada. Tão pequena, tão sem importância, tão, tão nada. E eu já me senti assim tantas, tantas vezes… Em tantos dias da minha vida eu me senti um nada. Mas eu não gosto de olhar pra isso. Não gosto de me sentir tão insignificante. Queria ser tudo o tempo todo pra todos. Mas talvez, exatamente porque de verdade me sinta nada, preciso tanto provar pra mim que ou tudo, através dos outros.

Mas, se penso bem, por que tenho que variar entre o tudo e o nada? Por que faço questão de me identificar com o tudo ou o nada e ficar gastando energia nesse exercício sem fim e insano de me aumentar e me diminuir? Por que não incluir? É verdade que não sou nada. Diante de tudo que está fora, do Universo tão infinito, sou um pedacinho de nada. Mas também sou tudo, diante da minha vida, pois há um Universo inteiro dentro de mim.

Não sou nada diante do Universo infinito e sou tudo diante da minha vida.

E posso coexistir comigo. Suportar um pouco da dor, pra conseguir conviver com o amor.

O maior risco de amar está na possibilidade de não ser amada. Se posso suportar a dor de que algumas vezes não serei amada mesmo, ou ao menos do jeito que gostaria, estou pronta pra amar.

Devagarinho Sussurro

Estamos mais preocupados em ser vistos do que em ver. Em ser ouvidos do que em ouvir. Em ser curtidos do que em curtir, relaxar, nos divertir. E penso nisso… Nos efeitos disso. Desse viver pra fora, sem mim. Com a atenção nas expectativas dos outros.

Estamos o tempo todo correndo, atropelando, nos atropelando. Passando por tudo, sem ver nada. Seguindo pegadas, copiando opiniões, sem realmente nos perguntar. Correndo atrás de admirações vazias, que não enchem a alma. Seguimos como zumbis sem coração pulsante. Andamos solitários atrás de reconhecimentos de sermos melhores, maiores, sem encontrar ninguém. Sem encontrar conosco. Sem ser capaz de perceber ao menos o que queremos, nesse desespero de pertencer, nos perdemos.

Não observamos as belezas de agora à nossa volta, não conseguimos, muitas vezes perceber como nos sentimos diante do que ou de quem está à nossa frente. Ou nos perguntamos para que agimos assim ou assado. Para que queremos isso ou aquilo.  Apenas engolimos o que nos é apresentado e reagimos.

Não reconhecemos o que é essencial pra nós. Não vemos a beleza da vida lenta, que percebe a delicadeza do olhar, a maravilha do parar. Temos que correr atrás da pressa que nos tira a gentileza. Não é permitido parar, temos que chegar à algum lugar. Mas onde? E para quê? Para finalmente poder descansar? Quando a vida acabar ou eu não tiver mais forças pra experimentar? Aí, finalmente, vou viver? Será que vale à pena? Passar a vida sem alma, sem olhar pra nada além da pressa? Para ao final, só ao final, desfrutar?

Ver ao invés de querer ser visto. Ouvir mais que ser ouvido… Refletir e sentir sobre o que ou quem está ao meu lado. Sobre o que quero, o que gosto, o que preciso, essencialmente. Amar mais! Muito mais que querer ser amado!

Gosto de escrever à mão, gosto do sussurro da minha caneta do papel. Gosto de parar pra ouvir a risada das crianças na sala. Gosto do canto da cigarra, da cor da parede do meu quarto, de ver os passarinhos alimentando os filhotes no ninho. Ando devagarinho que até incomodo quem repara. Gosto de sentir o cheiro do que vou comer. De olhar no olho das conversas. Da fumaça do café. Da luz da floresta entrando pela janela do meu quarto. Da gata me acordar de madrugada, de tentar ver o infinito… Dentro e fora. Sou lenta e paro pra perceber a profundidade das almas. Com muito prazer…

SER PIRA

Eu estava pensando na vida e minha cachorra começou a latir. Fiquei irritada, mas antes de gritar com ela e mandá-la parar, percebi que a irritação estava em mim, não no latido.

Somos vazios. Nascemos vazios. Quando bebês, não temos programação nenhuma. Nossos pais, depois o mundo ao redor, nos enchem de crenças, as que receberam dos que vieram antes deles. Sentimos a forma como agem. Percebemos os valores que são importantes pra eles e começamos a reagir a essas crenças e ideias e sentimentos que estão a nossa volta. E, à partir disso, dessas crenças e ideias, começamos a perceber o mundo. Através das nossas referencias.

E somos prisioneiros disso. Ficamos presos só à isso. A essa forma de ver as coisas. Entendemos que é assim que as coisas funcionam. E criamos a realidade a partir dos nossos condicionamentos.

É difícil sair disso. É difícil olhar pra realidade sem imaginar nada. Pois foi assim que aprendemos a nos defender e reagir quando crianças. E, é ISSO que acreditamos que somos.

Pensamos que somos o que cremos. Que somos a nossa história. E essa é a nossa maior prisão. É isso que nos toma a liberdade. Estamos o tempo todo comparando o que vemos com o que imaginamos, estamos o tempo todo concordando, discordando de alguma coisa. Entendendo que algo é bom ou ruim, bonito ou feio, certo ou errado e deixamos de ser em função disso. De apreciar o que acontece, de sentir.

É que antes de fazer contato real com quem ou o que está à nossa volta, julgamos. Definimos. E nos perdemos da existência em si, que é vazia. E fértil.

Não escolhemos. Reagimos à tudo e à todos de acordo com o que nos encheram, sem nem experienciar, sem sentir do que se trata. E nos tornamos reféns disso. Mas será que realmente somos? Será que realmente não podemos escolher com o que preencher a nossa vida?

Eu acho que somos livres. E podemos a cada instante escolher preencher a nossa existência com o que realmente queremos.

Esvaziar e escolher. Trazer e deixar ir. Inspirar e expirar. Respirar.

RES – PIRA.

SER PIRA.

Ser, fazer diferente, “pirar”!

Como dizem por aí nas redes sociais,  “A loucura cura”. Sair do quadrado que criamos, pensar um pouco diferente do que acreditamos, pode fazer a diferença. Pode trazer a alegria! Pode trazer o amor…

RECUPERAÇÃO

A responsabilidade de ensinar, pra mim, está com quem ensina, e não com quem aprende. Quem tem o conhecimento e está se colocando na posição de professor, de capaz de passar o conhecimento, precisa se colocar de acordo com aquele que está aprendendo, ser criativo e descobrir um método ou uma forma de transmitir aquilo que sabe. A responsabilidade não pode estar com quem aprende, simplesmente porque ele não sabe.

Por isso eu não concordo de forma alguma com recuperação e bombas, muito menos com notas. Principalmente quando se trata de crianças. Crianças precisam de apoio para aprender, de se sentirem seguras, ouvidas, vistas e amadas. Não de ser colocada em uma situação em que se sentirá diferente, provavelmente humilhada, por não ter conseguido alcançar o que era esperado dela, por um adulto, que inventou que ela deveria entender isso ou aquilo de acordo com um método predeterminado.

Os que ensinam é que deveriam entrar em recuperação. Eles é que deveriam parar e analisar suas falhas, olhar para o que poderiam fazer diferente, para como poderiam achar outras formas de passar o que deveria estar sendo naturalmente absorvido por aquele que aprende. O que não aprende, não é, na minha visão, burro, ignorante, incompetente ou pouco esforçado, ele só não está recebendo apoio suficiente. Porque aprender, querer conhecer é algo natural no ser humano, gostamos de nos desenvolver, de crescer, de adquirir novas habilidades.

Nas escolas, o modelo ensinado hoje é o da competição. Ouço pessoas contando sobre professores que dizem que é cada um por si. Cada qual cuida de só de si mesmo e da própria vida e de ser melhor do que o que está do lado. Como se este modelo competitivo de sociedade estivesse funcionando. Como se as pessoas estivessem felizes assim, umas querendo ser mais e melhores do que as outras.

O que nos deixa felizes é nos sentirmos acolhidos, é acolher. Não há satisfação maior pra uma pessoa, pelo menos de onde eu vejo, do que ser parte do crescimento de alguém. Do que ajudar outra pessoa. Principalmente se a ajudamos a se desenvolver. Competir não leva ninguém à felicidade nenhuma. Cooperar sim.

Ou o que vou fazer se eu chegar sozinho ao topo mais alto do sucesso, se lá não tem nenhum abraço?

Eu tenho pra mim que enquanto não tivermos coragem de mudar o modelo de sociedade proposto, de uma sociedade competitiva pra uma cooperativa, e é preciso muita coragem pra isso, pois temos medo, muito medo disso, pois aparentemente nos deixaria frágeis. Vamos nos engolir vivos. Vamos continuar nos sentindo infelizes, pois estamos quase todos infelizes, se repararmos bem. E eu penso que essa mudança precisa acontecer na escolinha, com as crianças, ensinando-as a ajudar os coleguinhas, inclusive aqueles que não sabem, não acho que podemos deixar alguém pra traz, comparar o desempenho de um e de outro com notas, punir aqueles que não atingem o mínimo esperado. Cada um é cada um e cada um tem o seu lugar. E, todos, podemos estar com cada um, não contra.

Um desabafo

Liberdade

O que é liberdade? Penso… Será fazer o que eu quero, quando quero? Será ser egoísta? Será nunca pensar no outro? Será poder escolher?

Liberdade pra mim está em me expressar. Em ter o poder (e a responsabilidade) de me expressar. Em saber que cada escolha que eu fizer, tem uma consequência. Liberdade é pensar sobre o que realmente quero, escolher e assumir as consequências da minha escolha. Isso é importante, somos livres na escolha, não na consequência. A consequência é compulsória.

Mas mais do que pensar sobre o que é a liberdade, acho importante pensar sobre o que limita a nossa liberdade. Porque não nos sentimos livres. O que nos impede de nos expressar livremente? Acho que mais do que o que nos acontece na vida, tipo, não ter dinheiro suficiente pra ir naquele show ou fazer aquele curso, não ter tempo de fazer aquela viagem, mais do que isso, penso que o que nos impede de ser livres são nossos condicionamentos. Nossos pensamentos condicionados.

Alguns sentem que devem ser especiais o tempo todo, outros se sentem ameaçados o tempo todo, alguns, têm medo de desagradar os outros e não serem amados. Mais outros, quando estão com alguém, e pensam em si mesmos, se sentem egoístas e sentem culpa. Outros andam por aí sem nenhum limite e acabam destruindo a própria vida…

Assim, além de nos sentir presos ao outro, prendemos o outro também. Quando penso demais no que alguém vai pensar de mim quando estou fazendo qualquer coisa, estou esperando desse alguém que tenha uma resposta específica ao meu comportamento. Claro! Estou planejando tudo tão direitinho… Ninguém pode fazer nada, diferente do que eu planejei… E, se fizer, vou ficar magoado, vou embora, vou brigar, vou fazer manha, me fazer de vítima, fingir que sou superior à tudo, vou me descabelar, mas não aceito a liberdade do outro. E, assim, quando não aceito a liberdade do outro, acabo me prendendo mais e mais.

E, assim, vamos nos dando nós. Nos amarramos. Estragamos a nossa vida. Deixamos partes de quem somos pra trás. Abrimos mão de nós mesmos pra poder controlar – manipular – as pessoas à nossa volta, pra justificar uma ideia louca que temos a respeito de nós mesmos. Nos perdemos pra mostrar algo que não somos.

Complicado… E… Pra que? Se a gente pensa bem, nem sabe… Sofre à toa no meio dessa confusão tresloucada. Para que? Essa é a pergunta. A pergunta que me faço a cada passo. A cada coisa que entra ou sai da minha vida. Para que? Isso me serve? Estou fazendo isso por mim, pra melhorar as coisas? Ou só estou num esforço inútil de conseguir prestígio, admiração, especialidade, proteção… Quando o que realmente quero é amor… Sem liberdade não podemos amar, e, sem amar, não somos amados.

Eu estou desistindo disso. Cansada de tanto esforço pra nada. Quero andar em silêncio, sem fazer barulho pra não acordar as dores do mundo. Quero mares e cachoeiras. Gargalhadas puras. Estar onde eu vou. Sem pensar demais. Quero saber dizer não quando algo não me gostar. Quero abrir o coração, a alma e o tesão praquilo que eu amar!

À FALTA

À FALTA

Nós somos carentes. Sentimos falta, porque somos incompletos. E, ao mesmo tempo que isso é dolorido, pois precisamos do outro. É uma benção, pois precisamos do outro. Isso mesmo. É dolorido e ao mesmo tempo, uma benção.

Dolorido, pois tantas vezes nos machucamos ao pedir, tantas vezes não recebemos o que precisamos, tantas vezes precisamos enfrentar essa fragilidade trágica dos nossos corações… De se entregar e cair sem saber se há rede de proteção. Essa fragilidade de poder, à qualquer momento, estatelar a cara no chão. Essa nossa pequenez de precisar. Que nos leva à grandeza de pedir.

E, ao mesmo tempo, a mesma falta é o que nos leva a nos relacionar, a estar ao lado, a nos doar. É o que nos leva a sermos gentis, a abrir mão de nossos instintos mais tenebrosos e do nosso egocentrismo. Pois, afinal de contas, precisamos uns dos outros. Se eu preciso poder contar com você, você também deve poder contar comigo.

E, nesse paradoxo, caminhamos. Quando não decidimos nos fechar, nos esconder, fingir que somos só, pura e simplesmente perfeitos-autossuficientes-gentis, que não precisam de nada ou de ninguém pra sermos felizes. Que damos conta, de tudo e do todo sozinhos. E, caímos assim numa necessidade insana de controlar a tudo e a todos, pois não confiamos. Porque temos medo, porque estamos apavorados de que vejam a nossa fragilidade, que percebam a nossa necessidade, que muitas vezes, nós mesmos, não queremos olhar. E, pagamos aqui, o preço da solidão… E a conta dos antidepressivos da farmácia.

A verdade é que, tirando os Oshos da vida, todos nós precisamos. De abraço, de carinho, de aconchego, de cheiro, de cheirar, de beijo, de briga (brigar as vezes é demonstração de carinho e amor), de companhia pra ir no cinema, de jantar com a mesa farta de sorrisos, de alguém pra nos dizer o quanto engordamos, que precisamos estudar mais, trabalhar menos, alguém pra nos chamar de volta. De volta pro que é essencial, de volta pra onde está o nosso coração.

Afinal, a gente não se enxerga! À não ser diante do espelho, quando somos somente uma imagem projetada, cheia de poses. Mas, não nos enganemos, o mundo nos vê.

Eu acho que só nos relacionamos, só somos capazes de nos relacionar amorosamente, quando somos capazes de estar diante da nossa falta. Da nossa carência. Quando somos capazes de assumir o que precisamos do outro e suportamos estar neste lugar vulnerável, onde estamos à mercê, onde confiamos. E confiamos apesar do medo, apesar de saber que vamos nos machucar. Pois vamos nos machucar. Isso é inevitável. Não existe feliz pra sempre. Eu, inclusive acho que, pra ser feliz, é preciso aceitar que viver dói. Que não há como passar pela vida sem sentir alguma dor, sem ser frustrado. Isso é infantil.

A verdade é que precisamos. Precisamos de alguém pra amar.

Eu sou eu, você é você

“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.” Fritz Perls, 1969

A gente tem essa ideia louca de que só é amado se atender às expectativas dos outros, de que a gente tem que ser isso ou aquilo, ou fazer isso ou aquilo outro pra conseguir ou manter o amor de alguém por nós. Talvez um resquício da educação infantil em que o humor da mamãe e/ou do papai dependia do meu bom comportamento.

“Se você fizer isso vou ficar triste”, “Fico de mal de você se não fizer aquilo”…

O amor que sinto por você vai acabar se você não for perfeito, bem sucedido, diferente, especial, esperto, inteligente, bonito… E por isso a gente passa a vida toda buscando viver uma realidade que não é a nossa pra atender ao que querem de nós… Além de ser triste, desperdiçar a experiência de experimentar o que eu quero da vida, eu fico até um pouco brava com isso.

Fico imaginando o tanto de problema, o tamanho da infelicidade que isso nos causa. E o tamanho da loucura que essa ideia louca (repeti louca de propósito, que isso causa no mundo) A gente aprende a viver sem sentir a vida, porque se a gente sente, não aguenta. Precisa tomar 20 antidepressivos pra amortecer a saudade que estamos sentindo de ser a gente mesmo.

E, sabe… O amor está no encontro, só no encontro. No sorriso, nas lágrimas, no silêncio, na suavidade, na alegria, na tristeza, no paradoxo, em estar ao lado, só isso, só estar ao lado… E ele acontece quando tem que acontecer, quando existe realmente algo pra se encontrar. E o encontro só acontece realmente quando estou sendo eu mesmo diante do outro. E, muitas vezes o que eu faço ou deixo de fazer é diferente do que você pensa que é bom, do que é certo, do que é legal, mas a verdade, é que o que eu faço, ou digo, não sou eu. Eu sou só a minha presença, um estar aqui. Enquanto você está aí. E certamente, quando estivermos em relação algo vai me incomodar em você, e você se incomodará comigo, mas isso é só o nosso medo. A vontade de levar a vida de um jeito só.

 

 

UM BELO DIA RESOLVI MUDAR…

“Um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo que eu queria fazer… “

Resolvi cortar o cabelo, parar de me preocupar com o que o vizinho vai achar de mim, me livrar das expectativas, das sobre mim e das minhas. Lidar com o que está acontecendo agora. Agorinha…

Decidi parar de sofrer, de querer ser outra pessoa. Que mania essa de querer o tempo todo ser outra pessoa, de estar o tempo todo insatisfeito consigo mesmo… Enjoei. Decidi aceitar que sou só isso tudo mesmo. Algo pequeninamente genial. Absurdamente imperfeito. Alucinadamente sincrônico. Que não precisa se mover tanto, querer tanto, fazer tanto. Que pode ficar quietinha e inteirinha. E dançar! Bailar e girar pela vida afora.

Posso ser linda, leve, vento! Posso ser sagrada e louca. Menina e sábia, manhosa, enrolada, distraída, criativa, doída, horrorosa, monstruosa, bruxa, fada, mãe, esposa, Mulher, estudiosa, cozinheira, arrumadeira, professora, condutora, brincadeira, flor, malvada, mal falada, sedutora, lenhadora, quietinha, sorrateira, observadora, brava… Ou nada.

Aceito cada giro, cada parte, cada pedaço despedaçado de mim que junto e cato e que me fazem completa. Um círculo inteiro como o sol, feito de todos os raios de características que se compõem, se trocam, se encaixam, impõe, sobrepõe, contradizem, que posso usar, irradiar quando quero, preciso, ou sou acometida. Sou realmente, principalmente, acometida. E está tudo bem, está tudo fora de controle e muito bem.

Acho graça até do meu jeito que quer controlar quando aparece, pois vejo o medo que o constrói. Vejo essa vontade doida varrida de tentar colocar o mundo na palma das mãos, de fazer os outros participarem da brincadeira de bonecos da minha criancinha interna e tenho vontade de rir! Tamanha é a ilusão! Fazer caber o mundo na palma da mão! Se nem meus olhos são capazes de alcançar a magnitude do mar..

Até isso é pra mim aceitável. O medo. Mas não é o medo de querer que seja desse jeito. Mas o medo de não saber mesmo, porque não sabemos nunca é de coisa nenhuma. Não sabemos de nós mesmos… Como saber o caminho do vento? Mudamos o tempo todo de ideia. Mudamos as crenças. Os lugares, os gostos na boca, as necessidades, só não queremos ver, porque temos medo de deixar girar. E ficamos fingindo que o mundo cabe na mão (preciso repetir isso), que as ideias que temos são certas. Ou erradas.

É… Me deixar viver é enfrentar o medo. O medo de talvez de não ser amada. De dar uma cambalhota. Me deixar ser é abrir mão do medo de não ser aceita, querida, reconhecida, admirada, Barbie, boneco, robô e zumbi. É surtar, gritar, sussurrar, se jogar, brilhar, sujar, amar. Sem se julgar (?). Será que dá pra ficar um pouco frágil na vida? Pra aceitar que somos mesmo é frágeis sem tentar fingir tanto? Sem arrumar tantos subterfúgios (sucesso, beleza, carro, dinheiro) e ser só a gente mesmo? Sei lá…

Mas a verdade é que um belo dia resolvi mudar, e deixar o meu cabelo assim, como está.

O que me machuca

Outro dia fiz uma lista de tudo o que me machuca hoje na vida. De todas as coisas que eu faço ou deixo de fazer ou deixo fazerem comigo que me machucam.

Não fazer exercício me machuca, não beber água me machuca, não ouvir as necessidades do meu corpo me machuca. Não dar atenção suficiente aos meus filhos me machuca. Ficar sem ler me machuca, ficar sem escrever também. Deixar o jardim sem cuidar me machuca, esquecer de trocar a água para o cachorro me machuca.

Não passear com o cachorro me machuca, não ser atenciosa com as pessoas me machuca. Ficar muito tempo na internet me machuca. Me comprometer com alguém e não cumprir me machuca. Ter roupas que não me servem no armário me machuca. Não doar as coisas que não quero mais para as pessoas me machuca. Ficar juntando coisas em casa, ou sem fazer nada também.

Não visitar a minha avó me machuca. Querer ser reconhecida por qualquer coisa que eu faça me machuca. Insistir pra que alguém me ame me machuca, muito! Ficar esperando respostas me machuca. Falar demais machuca, falar demais sobre mim me machuca. Comer demais me machuca, parece que estou me punindo, que não gosto de mim.

Não comprar as coisas que eu preciso me machuca, comprar muitas coisas desnecessárias também. Ser tradada de forma leviana, ter meus sentimentos desconsiderados, me machuca muito. Quando eu não dou lugar ao que sinto também me machuco. E faço isso tantas vezes ao dia…

Julgar as pessoas me machuca, pois sei que cada um é o que é por causa da história que tem. Não colocar limites quando estou sendo machucada me machuca. Assumir o que eu quero e sinto o tempo todo me assusta. Machuca um pouco, mas não quero parar. Prefiro a verdade.  E imagino que incomode um pouco.

Vejo que o que mais me dói é pedir amor pra quem não pode dar e não dar o amor que tenho, ou sinto.

Olhar pra mim, ver o tanto que me machuco, me liberta. Apesar da percepção de que eu estou me machucando, me faz pensar que eu sou meio boba, também me dá o poder de mudar a situação.

Ciclos

Estamos todos aqui. E aqui e agora, nossos corações estão unidos.

Estamos todos de mãos dadas sob o sol, sob a luz divina.De nossas raízes, fortes e profundas retiramos a força da presença, da autorresponsabilidade, da terra. O sol aquece nossos corações e suspende a nossa dor, nos mostra. E, quando essa dor está à nossa frente, por alguns momentos não vemos mais o sol, o divino fica nublado, nossa consciência superior se escurece um pouco. Vem o vento e os raios. E sentimos a força da dor sobre nós, como uma tempestade que se forma. E ao nos apoiarmos em nossas raízes, uns nos outros, balançamos um pouco, nos sentimos um pouco assustados, mas continuamos aqui. Presentes e autorresponsáveis.

Então, a dor se precipita. Chora e cai sobre nossas cabeças, lava nosso coração, retira as folhas velhas, caem os velhos ciclos secos, viciosos. E entra na terra e agora, as nossas raízes se alimentam dela e a transformam em seiva.  Na seiva da vida, que nos ensina a superação dos nossos obstáculos. E, alimentados, novas folhas, flores e frutos crescem em nossa história. Novas sementes são plantadas e a vida se renova. O sol, o divino, novamente nos ilumina e aquece os nossos corações.

Até que estejamos prontos para novas tempestades.