HOMEOPATIA EMOCIONAL

Negamos nossos sentimentos… O dia inteiro. Entendemos, não sei por que exatamente em algum momento da história, que existem sentimentos negativos e positivos. Como se classificássemos as cores em boas e más:” – Olha, escolhe o azul pra pintar a sua casa, pois o vermelho é uma cor muito malvada… “ Vermelho é só vermelho, azul é só azul! Alegria, tristeza, raiva, amor, são só sentimentos. Não estão aí para temê-los, ou esconde-los, ou nos envergonharmos deles, mas para nos indicar algo. Sentimentos são como a música que o coração toca para sinalizar o caminho que precisamos seguir, que queremos seguir. Pra sinalizar quem nós somos.

E, pior, agimos como se fosse realmente possível escolher como nos sentimos. Acordamos tristes e passamos o dia a jogar confete nas pessoas à nossa volta. Guardamos a tristeza em uma caixinha preta bem no fundo do nosso coração e seguimos fingindo que nada está acontecendo. Até o dia em que essa caixinha enche, estoura, e, aí, não conseguimos mais controlar nada… Então não me admira a quantidade de gente deprimida… A quantidade de crimes, a ira das pessoas.

Ninguém fala o que precisa ou como se sente e fica fingindo o tempo todo que está tudo bem. Eu me pergunto, para que? Pra mostrar que sou a pessoa mais fantástica do mundo e pra todo mundo gostar de mim, eu me desrespeito o tempo todo? Eu não acolho como me sinto? Eu passo a vida expressando algo que não sou? Ou não estou? Pois os sentimentos são temporários. E, cada um tem a sua função.  Eles indicam o que gosto, o que não gosto, se estou me sentindo invadido, ou querendo mais.

A raiva, por exemplo, serve para nos proteger. Pra colocar limites, pra expressar um descontentamento. Se usamos a raiva com atenção, e, proporcionalmente ao fato que está acontecendo, temos uma grande aliada da felicidade. Pois ninguém é feliz sendo invadido e abusado e se sentindo desvalorizado o tempo todo.

Já a tristeza, pra mim, tem uma função de honrar o que é importante pra nós. De nos mostrar onde está a nossa dor, do que precisamos abrir mão, nos ensina a dar valor ao essencial, muitas vezes depois que já perdemos…

E, quando não assumimos nossos sentimentos, não aprendemos a lidar com eles. Se guardamos toda raiva que sentimos, como vamos saber a medida quando nos irritarmos? Será que usaremos na medida certa? Creio que não. Creio que qualquer fagulha explodirá o barril inteiro.

Penso que reprimir como nos sentimos não nos ajuda a sermos pessoas melhores, vejo isso como uma ilusão da geração auto-ajuda. Acho que o que realmente nos ajuda é assumir quem somos e nos respeitar, assumir como estamos agora e deixar passar. Ser verdadeiro nem que seja só conosco mesmo. Acredito que doses homeopáticas de sentimentos, demonstrados de acordo com cada momento da vida, podem nos deixar, e ao nosso redor, melhor, mais inteiros, com auto-estima verdadeira, pois, de onde vejo, quando nos mostramos, estamos nos valorizando.

Claro que se persistirem os sentimentos que causam desconforto, um médico deverá ser consultado.

METAS

Chegamos ao meio do ano. 17 de julho e eu não emagreci, o Brasil não ganhou a copa, meu armário não está arrumado, não aumentei a renda em 30%, quanto mais em 50%. Não viajei pra Dinamarca, não viajei pra Milho Verde ainda… Não consigo cumprir todos os itens da agenda semanal, não troquei o carro pelo vermelhinho dos meus sonhos, até porque não tinha dinheiro. Não parei de brigar com o meu marido, não consigo dar conta de corrigir, todos os dias, todas as tarefas dos meus filhos, nem de ligar no aniversário de todos os meus amigos. Creio que não liguei para nenhum esse ano. Não consegui nada do eu queria!

Já chegamos na metade do ano… E... Eu NÃO bati nenhuma das minhas metas. Nenhuma mesmo!E graças a Deus por isso! 
Quanto mais amadureço mais aprendo a fazer planos e não me torturar quando nada acontece! Ter fé e ser entregue é saber que a vida é como uma montanha russa…
É sábio e muito digno da felicidade aquele que aprende a se divertir com os altos e baixos… Cultivando aquele friozinho na barriga, das expectativas enquanto estamos subindo, aproveitando a vista e consciente de que vai descer!
Mas quando desce, há muita diversão, quando simplesmente há entrega à impotência da nossa vontade, frente ao que a nossa fé nos reserva.
Sou tão grata por tudo de maravilhoso que Deus tem permitido em minha vida! E, se perguntarem se os planos estão se concretizando, eu digo que nem eu pensaria tantas coisas boas para mim!” (Denise Gabriela Rodrigues)

Porque decidi que agora ao invés de querer e me esforçar tanto pra conseguir o que penso que quero, vou aproveitar o gosto, o gostoso, de cada um dos dias com a surpresa que tem dentro, vou aproveitar cada momento, do jeito que ele vier e vou estar comigo, do meu jeitinho santo ou louco de agora, sem querer me mudar. Vou aprendendo, desfrutando, fazendo o meu melhor e me reestabelecendo das intempéries da vida. Dessa vida louca e deliciosa vida.

Deixei as pretensões de lado e só sigo o que se apresenta. Só olho pro que está logo ali na frente e me desintegro no presente. Faço parte. Não que não tenha sonhos, claro que tenho, não que fique parada esperando a vida passar, não. Só não sou tão rígida, tão exigente com as ideias  que tenho a respeito das coisas. Ideias são só ideias, pensamentos não existem. Prefiro experimentar a realidade que muitas vezes não é o que planejei. Mas é muito mais gostosa, ou proveitosa, mesmo que amarga. Assim, tenho aprendido a ser feliz, e triste quando a situação me abala, e firme, quando é o que me exigem as coisas da vida. Tenho cuidado melhor de mim, tenho sentido mais amor por mim…

“E que este ano – resto dele –  traga tudo o que seja bom pra mim, independente do que eu queira” (Denise Gabriela Rodrigues)

SABER AMAR E SABER DEIXAR ALGUÉM TE AMAR

Saber amar… E saber deixar alguém te amar… Saber beijar, ser abraçado, saber falar e ouvir, saber o que quer, saber dizer o que precisa, se deixar cuidar, fazer o necessário pra que a vida seja boa. Saber estar a toa com alguém ao lado, ser livre com alguém ao lado. Ter prazer consigo mesmo, é ter prazer com o alguém ao lado.

Se permitir ser você mesmo com alguém ao lado, cuidar de si mesmo, mesmo com alguém ao lado. Ser livre e grudado. Ter coragem de estar inteiro e com você quando se está com alguém ao lado, compartilhando a vida. Saber dizer não, eu quero, eu detesto, saber pedir o que necessito, sem exigir. Se respeitar e respeitar o espaço do outro.

Ter coragem de dormir melado, ou pelado, de cantar desafinado, de acordar com a boca fedendo, de mostrar suas loucuras, seus ciúmes, suas doçuras, suas impurezas e brancuras, pra esse alguém, ao nosso lado. Liberdade de errar, vontade de contar, às vezes de esgoelar… Mas não se mutilar por ninguém, não criar expectativas a respeito de ninguém. Não matar o seu amor, não se matar pelo seu amor.

Limites são necessários, carinho é necessário, atenção, dedicação, cheiro, informação, coração, comprometimento, individualidade, desejo, sensações. Gostar de estar junto, é indispensável.

Às vezes a gente inventa alguém na nossa cabeça pra se relacionar. Tantas e tamanhas são as expectativas que temos a respeito da pessoa que está conosco e, pasmem, nos frustramos quando essas ideias loucas e irreais que criamos dentro das nossas cabecinhas criativas não acontecem. E, pior! Criamos uma pessoa que não somos pra estar ao lado de alguém, tipo, cortamos o nosso braço, deixamos de fazer o que gostamos, fazemos um monte de coisas que não queremos, pra tentar ficar com alguém. Damos tantas vezes o melhor de nós sem receber quase nada em troca… Fazemos de tudo pra não sermos abandonados.

E isso não tem nada a ver com ninguém. Essa sensação de estarmos sendo abandonados não tem nada a ver com ninguém. Tem a ver conosco mesmo, com o nosso medo, nossa falta de confiança, com não acreditarmos realmente que merecemos ser amados. Porque às vezes, a gente acha, só as vezes, que devíamos ser perfeitos ou lindos ou os mais bondosos ou os mais eficientes, ou OS CARAS, pra merecermos ser amados. Mas a verdade, é que somos amados por nada. O amor de verdade acontece no vazio, quando estamos parados, sendo só a gente mesmo, sem tentar nada, sem olhar pra fora, sem esforço nenhum. O amor acontece do nada, por nada, e não tem explicação. Até porque, não foi feito pra ser explicado, mas vivido e desfrutado.

EM DIA DE JOGO

Meu cunhado ajoelhado no chão na hora dos pênaltis, xingando todos os palavrões do mundo! Meu filho, de 8 anos, começa a xingar também. Eu, claro, mando ele parar.

- Mas o meu tio está xingando, mãe! Se ele pode xingar, eu também posso.

E o tio mais legal responde:

- Pode! Em dia de jogo pode. Mas só em dia de jogo.

Eu engoli a vontade de dizer pra ele ficar sem trabalhar o resto da semana pra vir educar meu filho, porque concordei. Em dia de jogo do Brasil, a gente pode até xingar!

A gente grita, a gente berra, a gente corre, a gente dança, a gente reza, a gente vibra, a gente junta, a gente briga, a gente come, a gente bebe, a gente enfeita e se descabela.

A gente pinta a cara, a unha, a rua com as cores da bandeira, a gente está lá, na cara do gol, a gente agarra junto os três pênaltis, a gente quer matar o goleiro do México, a gente quer compartilhar nossa alegria com todos, até com quem está na Dinamarca.

A gente, infelizmente, diz impropérios horríveis a respeito da mãe daquele juiz careca ladrão. A gente engole o choro quando ouve todo mundo cantando junto o hino nacional… E, tem gente, como eu, que se derrete em lágrimas mesmo…  A gente se sente parte.

Naquele momento, naquelas duas horas, nos estamos todos juntos, fazendo a mesma coisa, olhando pro mesmo lugar. Nós somos uma nação, a NOSSA nação verde, amarela e azul e branca. Nós lembramos que somos todos filhos da mesma terra generosa, calorosa e linda que só ela!

A gente é um! E naquelas intermináveis duas horas, naqueles pênaltis apavorantes, a gente sente essa unidade suar frio em todos os poros. A gente entra no pé do Neymar, pula com o Julio, fica zangado junto com o Filipão. A gente Ama junto a mesma camisa, as mesmas cores, incentiva os mesmos meninos.

E, me desculpem os mais intelectualizados, preocupados (chatos) do que eu, mas ninguém me tira isso! Nenhuma discussão política do mundo me tira esse gosto de fazer parte do meu Brasil!

Golaaaço! Beijaaaaço!

Fo-fo-fo-fo-fo-fo… Foi ele, o craaaque da camisa número 8!
Ele entrou pela direita, chutou pela esquerda e… Na traaaaave do meu coração!
Mas não desistiu… Driblou o primeiro pela esquerda, o segundo pela direita, derruuuuubou o terceiro! E, na cara do gol, arriscou… Olhou nos meus olBrasil coracao heartlhos e… Beijaaaaaaço! Apaixonante!, Vibrante! Gostoso! Redondinho!!!
Um beijo verde-amarelo, no dia da Independencia do Brasil, 07 de setembro, há 17 anos atrás! Com banda tocando em baixo da janela e tudo.
Não foi fácil, não está sendo ainda, mas a torcida que já era grande aumentou! Doi membros lindos, queridos, amados e maravilhosos! Que valem por dois fãs clubes inteiros!
A cada partida é um resultado. Claro! Assim é a vida! A cada dia é um desafio… Precisamos treinar, focar, nos esforçar, reafirmar nossos votos de amor diante do mundo e querer vencer as derrotas momentaneas.
Pois quando se ama um time, quando realmente se dedica a uma relação, não importa se perdemos uma partida ou outra. O que importa é vestir a camisa, é se comprometer, é estar ali em todos os momentos, na alegria ou na tristeza, no erro ou no acerto, na dor e no desfrute, o que importa é focar no amor, no algo maior que nos move juntos por esse campeonato.
Precisa querer resolver os problemas que surgem entre ataque e defesa Trabalhar os ego, as vontades individuais, pelo bem da relação, pra, mesmo quando a bola for pra fora, ter sabedoria e simplicidade pra saber que um time é um time, uma bandeira é uma bandeira, amor, é amor! Que precisa brigar pelo que se ama, pelo coração! Com garra, força, vontade de vencer, mesmo que aquela partida já esteja perdida.
Precisamos encontrar o melhor em nós a cada momentinho que decidimos ficar juntos. Lembrar o porque começamos a namorar, há taaanto tempo atrás… E com essa força, enfrentar juntos os percalços da vida, o juiz ladrão, a falta não marcada, o penalti roubado. Comemorar com todo coração, cada gol que nosso amor fizer!
Pra no final, no balanço final, saber que ganhamos de goleaaaaada!

E, só pra lembrar porque é tão, tão bom:
- Mãe, o que é sede da copa? É por que faltou água no dia do jogo, mãe?
Sem rir, sem rir, sem rir…
- Não filho, sede é onde a copa do mundo vai acontecer. Onde vão ser os jogos.
- Ah… Ainda bem… Porque ficar correndo sem beber água é muito ruim, né?

Te amo, amor da minha vida, e amo a vida cresceu e ainda cresce do nosso encontro!

Feliz dia dos namorados pra nós que comemoramos assistindo à Copa do Mundo! 

 

Vamos interpretar felicidade?

Filho mais novo de 8 aninhos cantando uma música da apresentação da escola. O mais velho, de 10, começa a brigar com ele, mandando-o o outro se calar. Pergunto o que é e ele responde:

- Mas mãe, ele está me irritando!

- Mas ele não tem que calar a boca porque você quer.

- Mas ele está me irritando. Então vou ficar bravo aqui, e vou brigar com ele sim.

- Não filho, ele não está te irritando. Você é que se sente irritado com ele. Com o que ele está fazendo.

Ele não concordou comigo. Continuou querendo bater no irmão, mas, a verdade é que ninguém é responsável pelo sentimento de ninguém. Uma pessoa não irrita a outra, a outra é que se permite irritar com o que a uma está fazendo.

Os nossos sentimentos são nossos, reações que nos permitimos ter diante do que as pessoas fazem da vida delas. A raiva, a tristeza, a alegria, o amor… São nossos. Nascem em nosso coração, de acordo com como interpretamos o que nos acontece. E, por serem nossos, por nascerem de nós, são responsabilidade nossa também. E, se responsabilizar por si mesmo, é ter poder sobre si mesmo.

Se eu viajo pra fazer um curso e meus filhos não se importam, posso interpretar que eles são bem resolvidos e nem ligam, o que me torna uma ótima mãe e me deixa muito feliz. Ou posso interpretar como desamor, o que me faz a pior mãe do mundo e me deixa arrasada!

Se meu marido trabalha demais, posso entender que ele não me dá importância e me sentir abandonada e triste, ou posso achar que ele é muito preocupado com o bem estar da família e me sentir a mais amada de todas as mulheres!

Se minha mãe fazia tudo pra mim quando criança, posso agradecer porque ela me deixou tempo pra estudar e brincar a vontade, ou posso brigar, porque ela não me ensinou a disciplina. Ou, o contrário, se meu pai me dava muitas obrigações, posso achar o máximo ter crescido independente, ou morrer de raiva por não ter sido cuidado como imaginei que deveria.

Uma dor profunda provocada por um fato da vida pode ser considerada por nós o fim da vida, nos levar a uma tristeza profunda, ou pode ser considerada um grande aprendizado… O meu filho mais velho pode estar entendendo que o irmão quer irritá-lo, ou poderia entrar na brincadeira e cantar junto!

Não é a realidade, é como interpretamos a realidade que determina como nos sentimos… E como nos sentimos diante da vida, é o que determina a nossa realidade. Parece estranho, mas escolhemos o tanto de beleza e alegria que há na vida que levamos.

Então vamos parar com essa brincadeira boba de julgar tudo que nos acontece e ficar felizinhos? Vamos tirar o melhor daquilo que acontece a nossa volta? Vamos entender que o mundo não se refere ao nosso umbigo o tempo todo e vamos viver o que é agora? E, vamos aproveitar pra nos divertir?

Basta olhar pra ver

Minha mãe ama cuidando das coisas pra gente, pra todo mundo. Nem senta na mesa com a gente, preocupada em nos ver bem e felizes. Esse é o jeito dela de amar. Meu avô amava nos dando presentes. Uma avó lembrando da nossa comida predileta, a outra, da bebida! Meu pai amava brincando e conversando. Meu amor ama fazendo play lists com minhas músicas preferidas, cozinhando pra mim, abraçando meus pesadelos. Meu filho maior ama filosofando, o menor, me agarrando!

Tenho um tio que ama zoando, outro ensinando o que é melhor fazer com a nossa vida. Uma amiga querida ama sendo muito generosa, outra ama acolhendo minhas idiossincrasias, outra ama brigando quando faço bagunça, outra rindo, outra só se cala e me aceita. Conheço quem ame sendo rígido, pra ensinar que a vida é dura. Quem ama com os olhos, quem ama cozinhando e quem ama comendo. Tem quem ame se doando, tem quem ame recebendo.

As flores amam se abrindo aos beija-flores e às borboletas, os cães amam protegendo, os gatos nos esfregando. Tem também as pessoas engraçadas que amam brigando, gritando e xingando.

Eu acho que amo ouvindo, dando atenção. E essa minha forma de amar não engloba tudo que todas as outras pessoas esperam de mim, eu sei. Pra quem é amado por mim, sempre vai parecer faltar. Mas também sei que toda maneira de amor vale a pena receber. Toda maneira de amor vale a pena amar. Vale olhar, vale procurar pra encontrar onde está.

O que não vale é ficar imaginando que não há amor porque o amor não veio do jeito que esperamos. O que não vale é se sentir carente e ficar tentando consertar os outros por não nos darem o que queremos, do jeito que queremos, na hora que queremos. O que não vale é não ser capaz de ver e reconhecer o outro em suas peculiaridades, é não receber o que está debaixo do nosso nariz e ainda ficar dizendo que não tem. O que não vale é ser ingrato. E, ainda, quantas e quantas vezes, se achar no direito de negar o melhor que se tem aos outros, como um direito adquirido por achar que não recebeu, não tem que devolver…

O que não vale, não vale mesmo, é se negar pra vida e achar que a culpa é dos outros. É ser priosioneiro da própria mente.

“Eu ri quando me disseram que um peixe dentro d’água tem sede”

Basta olhar pra ver.

Da batata ao tomate

- Filho,quer tomate ou batata palha?

- Eu amo tomate e odeio batata palha, o que você acha?

- Mas eu não tenho como saber disso, você adorava batata palha.

- Quando eu tinha 2 anos, eu gostava de batata, mãe.

- Então. Seu gosto muda, não tenho como saber do que gosta hoje.

- Eu tenho uma teoria. Que a gente gostar das comidas ou não, tem mais a ver com a nossa vida do que com o sabor da comida. Com as coisas que acontecem com a gente. Acho que todo mundo nasce com o mesmo gosto pras coisas.

- Mas o que houve que fez você deixar de gostar de batata?

- Não sei, acho que cresci. Deixar de gostar de batata é uma forma da minha boca dizer que eu cresci, sem precisar falar nada.

Nós não escolhemos do que gostamos ou não gostamos. Sentimos isso no corpo. São sensações boas ou ruins que nos acontecem quando entramos em contato com objetos ou pessoas e nos indicam que aquilo é prazeroso, gostoso, ou não. Não é um pensamento que decide se isso é bom ou não. É o corpo. E, cada sensação, boa ou ruim, é só uma nova oportunidade de nos descobrir.

Temos mania de querer dizer quem somos o tempo todo, e nos fixamos a essas ideias que criamos sobre nós. Nos construímos, imagino que para nos sentir seguros. Como construímos a um prédio, ou um forte, ou a um robozinho. Nos moldamos pra saber onde estamos pisando, e queremos saber da vida dos outros pra nos sentir seguros também. Trocamos personagens com as pessoas, mas, de verdade, somos mesmo um mistério a ser desvendado por nós mesmos.

Um mistério delicioso que nos é revelado a cada encontro que temos com o mundo ao nosso redor. Cada dor, cada amor, cada suspiro, em cada relação, em cada vínculo, em cada toque, em cada abraço, em cada briga, em cada decepção, está um pedacinho nosso que ainda não tinha se manifestado, ou se tinha, ainda não tínhamos visto.

Cada prazer (chamo de prazer o alívio também)  ou desprazer que sentimos em contato com o mundo nos indica para onde devemos seguir, por qual caminho devemos ir pra nos encontrar conosco mesmo.

E somos um mistério orgânico. Algo que cresce e muda. Muda até de gosto. Muda de vontade, muda de querer, muda de verdades, ainda bem!. Deixa de gostar de batata e passa a amar tomate. E nem precisamos, ou até, nem deveríamos nos atrever, a tentar entender por que. E para que entender? O legal é olhar e observar e aprender consigo. Ao invés de se conter, se amparar. Ao invés de se julgar, se amar.

MEU AMOR PRECISA TE ODIAR

- Meu amor agora precisa te odiar.

- Ãh?

- É, meu amor agora precisa te odiar. Ou ele continua se entregando e eu vou me machucar. Já estou machucada.

- O quê?

- O Amor que sinto por você precisa entender que está só. Que é de mão única. Ou vai se estatelar ali na frente, no poste. A raiva agora me defende da humilhação de continuar. Como me disse uma pessoa querida, é minha melhor amiga agora. Me defende de mim. De aumentar meu sofrimento.

- Mas e a dor? E a tristeza?

- Estão aqui, guardadas por enquanto. Até que eu ganhe força e possa enfrentá-las.

- Mas você não precisa se afastar. A gente pode continuar. Deixa fluir como está.

- Não posso.

- Por que não?

- Porque não tem fim. E quando é eterno, preciso eu dizer o quanto dura. Na dura realidade da vida, as ilusões, eternas companheiras do tédio, precisam em algum momento ter apontado o que é real. E o real é o que está aqui, agora, no presente. Nem tão contente. Nem tão intenso. Nem tão brilhante. Mas de verdade. Com os dois pés no chão. Respirando.

- Mas vai sofrer sozinha… Vai cair…

- Vou cair. E morrer. E virar pó. E depois servir de adubo para uma árvore de raízes fortes que me permitirá renascer. Das cinzas da dor, a flor.

“Uma vez eu tive uma ilusão e não soube o que fazer com ela”

- Que horror! Mas precisa fazer isso consigo?

- Preciso fazer isso por mim.

- E o que te faz fazer isso?

- Eu vi. Eu vi que nunca te vi. Que nunca me viu. Que não olhei seus sentimentos como não olhou os meus. Que estávamos vivendo juntos histórias diferentes. Que eu queria algo que não pode me dar, mas que me dava vislumbres disso. Pra ter de mim algo que também não posso te dar. Algo que já está em você. E eu, algo que já está em minha vida, mas não quero reconhecer, pois com o tempo, a gente se esquece de si mesmo, do que tem. E começa a procurar fora, aquilo que já é pleno, dentro.

- Estranho…

- Triste. Triste esquecer da completude. Ingrato e dolorido. A ilusão de fora vem pra lembrar de dentro.

- Mais estranho.

- Enfim, meu amor agora, precisa te odiar: “O tamanho da raiva é o tamanho da dor. O tamanho da dor é o tamanho do amor.”. 

 

MAMÃE MAIS OU MENOS

Voltando pra casa de um encontro de família. Eu, insegura, viro para os filhos e jogo a bomba:

- Gente, seu tio – chato – disse que seu pai é melhor pai do que eu sou melhor mãe pra vocês… – silêncio de auto-vergonha-comprida – O que vocês acham?

- O quê? Ficou doida, mãe?

Não… Claro que não…

- Seu tio (chato) disse que seu pai é melhor do que eu. Ele como pai e eu como mãe. O que vocês acham?

O mais novo, 8 anos, coloca a mão na testa, sério:

- Nossa. Sobre isso eu tenho que pensar muito!

Assustei:

- Por quê? – com ódio de não ter ouvido imediatamente que sou a melhor mãe do mundo.

E ele realmente analisando a questão:

- Mãe, você faz tudo pra gente, mas às vezes fica brava e é meio maluquinha. Meu pai não sabe falar não, e a gente acaba fazendo um monte de coisas erradas quando está sozinho com ele. Preciso pensar nisso. Preciso pensar muito!

Além do orgulho acerca da capacidade analítica do meu filho de 8 anos, fiquei chocada! Mas engoli o pulo e me virei para o de 10 anos que mantinha o silêncio como um manto de invisibilidade:

- O que você acha, filho? Quem é melhor?

- Pra que você quer saber, mãe? – entoando, lá vem ela de novo…

- Uai, pra saber o que você acha. Tipo, quem você prefere, o papai ou a mamãe?

- Ai, ai… Mãe, você e o papai não são muito bons não. Vocês são distraídos, às vezes ficam rindo quando brigam com a gente, demoram a fazer o que a gente pede, brigam porque a gente tá fazendo barulho ou bagunça – sendo criança. Esquecem de mandar a gente fazer tarefa… Me obrigam a comer o que eu não quero…

Calou meu coração. Mas engoli o silêncio e insisti:

- Mas a gente é tão ruim assim, filho? – por favor… Misericórdia….

- Humm… Na verdade não, vocês são mais ou menos. Fazem muitas coisas boas também. Ensinam muitas coisas, escutam a gente quando não estão vendo filme, fazem leite de manhã, deixam a gente ter os nossos bichos, compram algumas coisas que a gente quer…

Eu estatalei o olho na rua. Nem se quisesse falava mais. Depois de um tempinho, não sei se por culpa, pena, compaixão, verdade mesmo, ou tudo junto, completou:

- Mas, sabe? É bom que vocês sejam mais ou menos, porque se vocês fossem os melhores pais do mundo, iam querer que a gente fosse os melhores filhos do mundo. Iam querer que a gente fizesse tudo certinho também, cheio de regrinhas, cheio de horas. A gente não ia poder derramar tinta, sujar a casa, espalhar brinquedo, trazer um monte de colega, dormir na sala… Ia ser chato (igual ao tio que começou a conversa). Melhor vocês serem mais ou menos, porque assim, a gente também pode ser mais ou menos.

- É mesmo. – concorda o irmão!

EU TENHO OS MELHORES FILHOS DO MUNDO INTEIRO!!!! E nem sou uma boa mãe!

Em homenagem a esta aventura maravilhosa de ser mãe a que me propus ao decidir (mais ou menos) ter filhos. Em homenagem à minha mãe, melhor de todas, que me fez tão mais ou menos de perfeita que pude gerar essas duas criaturas incríveis!!!

Em homenagem à todas as mamães, perfeitas ou mais ou menos como eu.