Reticências

 

E tem todos esses sentimentos que eu não queria ter…
A inveja da amiga mais bonita que eu, que nem parece que tem 40 anos… O ciúme da festa pra qual não fui convidada. A raiva daquilo que não saiu exatamente como eu planejava. O fracasso que não conto e me consome…
A mentira que contei quando não foi possível dizer a verdade. Essa maldita tristeza infinita que não passa… por conta de uma infância mal resolvida, de uma morte inacabada.
A demora pra responder a mensagem, pra forçar alguma importância. A agenda cheia, que aparento… os espaços vazios, que aguento…
O desejo de ser curtida, a angústia de me sentir sozinha… a culpa por não conseguir agradar todo mundo, inclusive a mim mesma. Essa imagem/algoz que sustento pra nada.
Essa vontade maluca de ser melhor que as outras pessoas. Era melhor ser maluca mesmo. Essa sensação vazia de que, se não for especial, não sou nada. O que tem de errado com o mais ou menos? Se não for tanto, será que não serei amada?
A competição, a amargura, os espinhos que solto, com que me protejo do que penso que o outro pensa. As atrocidades que cometo, a fofoca disfarcada, a punheta velada.
O querer aquilo/aquele que não posso ter. O destruir aquilo/aquele que não me permito ser… A traição ao outro, ao que acredito, o auto-engano… que vejo tão claro.
O pavor da crítica que fazem de mim. Posso me desintegrar diante de uma delas. A farsa da vida:
– Tá boa? – Sim, tô ótima!
– A comida tá boa? – Sim, tá ótima
– Acho que não tá bom o suficiente. – Sim, tá ótimo.
– Faz pra mim? – Claro!
Aquela foto que carrega o peso do meu sorriso.
O medo de perguntar… e se ele disser não? O medo de dizer o não… quando não quero, não gosto… e se ela não gostar mais de mim? O medo de fazer, de rejeitarem aquilo que fiz… como se o que fiz fosse eu…
A raiva de ficar onde não quero… o medo de desagradar… onde aprendi a ser tão educada? Essa insegurança filha da puta! Onde eu aprendi a ser tão mal educada?
Essa ideia louca de não ser boa o suficiente… o tempo todo… e essa compensação alucinada, porque me mata de cansada, de querer ser excelente, ao menos…
Esse enojo de mim…
E todos esses sentimentos que eu não gostaria que fizessem parte de mim?

(por Paula Jácome em 10/08/2016)

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *