MINHA MAE AINDA MANDA EM MIM

 

Minha mãe ainda manda em mim. Tenho 40 anos, seis meses e 13 dias e, quando deixo a roupa jogada no chão e saio de casa, ela ainda grita: Menina! Vai sair e deixar tudo bagunçado assim?
Não vai escovar os dentes? Antes de passear, bebe água e faz xixi. Ela briga comigo quando esqueço alguma coisa. E eu esqueço muitas coisas… Muitas mesmo!
Ela me diz pra cortar as unhas, arrumar o cabelo, desfazer a mala.
Exige notas altas. Até hoje! E eu nem estou mais na escola… a nota agora é no trabalho, tenho que ter nota 10 de desempenho. Netflix na segunda? Nem pensar… nem mesmo se trabalhar todo o fim de semana. Nos relacionamentos, 8,5 está bom. Às vezes, menos é mais!
Agora, na organização da casa, sou rebelde. Ela fala, fala, e eu, de propósito, deixo tudo bagunçado. É minha forma de contra-atacar. Cada um tem a sua… E ela fala tanto, tanto, que tenho vontade de sair correndo pra longe disso. Por mais que a ame, essa voz na minha cabeça me irrita profundamente. É como um zumbido constante, estático, neurótico, que, na verdade, pouco tem a ver com minha mãe mesmo.
Minha mãe, em carne e osso, me apoia, sente orgulho de mim, torce pela minha felicidade, muito! Mais que pela dela. Hoje, me ajuda com as criancas e faz o que pode pra minha vida ficar mais fácil.
Mas ficou em mim essa vontade de agrada-la. De ser linda e perfeita pra ela. De vê -la sorrir ao me olhar… Ficou dentro de mim uma dor, pela minha incapacidade de concretizar esse amor alucinadamente cortante. Ficou o desespero em atender todas as expectativas que eu achava que ela tinha de mim.
Ela queria mesmo que eu fosse boa na escola, mas não era pra ela, mas pra eu ser independente hoje. Que eu andasse arrumadinho, fosse organizada, simpática, gentil e bonitinha. Pra me adaptar melhor, pra vida ser mais tranquila.
Ela estava cumprindo o papel dela, de me educar, cuidar, ensinar. E, eu entendi que precisava de dar conta de tudo aquilo pra ela me amar. Louco delírio! Não é minha culpa, ninguém me explicou. Nem dela também.
Preciso é reaprender, que nada que faço hoje é errado, nem sair descabelada, ou deixar a louça na pia, ou jogar a roupa pelo chão, e parar de me xingar e me punir por isso. Mas, preciso me responsabilizar pelas consequências disso. As pessoas podem me achar esquisita (o que é problema delas), podem aparecer ratos, e, eu nunca vou achar nada se não guardar direito…
Mas não preciso obedecer a voz nenhuma, nem pessoa nenhuma! – Porque, eu encarno nas pessoas a voz da minha mãe – Preciso saber que cada atitude tem uma consequência. E deixar as esquizofrenias da incompletude do amor humano de lado…
Se começo a me assumir, se saio do armário, mostro quem sou e o que faço, se sou capaz de me vestir da minha nudez, as idéias de como penso que devo ser começam a se distanciar… Até que se somem… Phuf! 💢
Serve para pais de todos os tipos também.
(texto de hoje, por Paula Jácome)

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