Vamos fazer um escândalo

Meu pai me mandava sentar direito. Sentar com as pernas encima da cadeira não podia. Era indecente. Eu nem sabia o que era isso. Eu não podia brincar sem camisa, ficar sozinha na rua depois de uma certa hora, brincar só com meninos.
Não entendia porque devia ficar no claro, não passar no escuro. Não. São tantos nãos.
Eles, os nãos, por si só são abusivos. Muitos doidos. Não podia entrar no quarto sozinha pra brincar com os primos. Por quê? Porque você é menina. Mas o que é que tem? Sempre tinha um alvoroço e nenhuma resposta.
Mas nenhum não protegeu do adulto “confiável” que enfiou a língua no meu ouvido quando eu era adolescente. Do homem que me esperava passar, voltando do vôlei, debaixo de uma árvore, se exibindo. Do adolescente que me tocou quando eu tinha 5 anos. Do outro que nos olhava trocar de roupa pela janela, a vida toda.
Daquele que me esperava, de bicicleta, passar à pé, e passava as maos em mim várias vezes pelo caminho. Nenhum não me impediu de sentir medo. De ficar assustada ao ouvir palavras pesadas demais pra uma menina que estava só indo comprar o pão. De sentir um amigo tocar meus seios fingindo ajudar a subir a escada, enquanto meu pé estava quebrado.
Nenhum não me protegeu do adulto que achava que tinha o direito de passar a mão na minha bunda toda vez que eu ia buscar água na cozinha. Nada me livrou da vergonha de contar aos meus pais cada uma dessas coisas, que ainda está aqui agora, enquanto eu escrevo.
Será que tem algo errado comigo que me lembro disso até hoje? Que fui marcada por essas violências que parecem tão naturais, mas que nos desrespeitam tanto? Será que é só comigo? Que eu estou maluca? Eu não devo ter tido modos suficientes pra acontecer isso comigo… Meninas precisam ter modos, precisam se comportar muito bem, pra não provocar nada. É o que nos dizem… Que a culpa é nossa. As vezes, porque a gente é bonita. Gostosa! NAO É. De jeito nenhum, NAO É!
Isso não pode ser mais tão normal. Pode ser escatológica e loucamente comum, mas não é normal. Precisamos tirar a normalidade disso. É um absurdo! Vamos fazer um escândalo!
(por Paula Jácome, inspirada por Jout Jout)

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